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21 de março de 2023

8 DE MARÇO

8 DE MARÇO

Projeto na periferia de Campinas incentiva mulheres à união: 'me tirou da depressão'

Projeto na periferia de Campinas incentiva mulheres à união: 'me tirou da depressão'

Sair de quadros depressão, aprender a viver bem, me virar sozinha. Relatos de mulheres que passaram por um projeto que incentiva o coletivo, na região do Campo Grande.

Sair de quadros depressão, aprender a viver bem, me virar sozinha. Relatos de mulheres que passaram por um projeto que incentiva o coletivo, na região do Campo Grande.

Por Luis Eduardo de Sousa | 08/03/2023 | Tempo de leitura: 5 min
Especial para a Sampi Campinas

Por Luis Eduardo de Sousa
Especial para a Sampi Campinas

08/03/2023 - Tempo de leitura: 5 min

Divulgação

Mulheres que integraram a segunda turma do Projeto Florescer

“Eu não sabia nada, não sabia do que era capaz. Eu só sabia ser do lar, limpar casa e cuidar de filhos. Se não fosse pelo projeto, eu não sei se teria a visão que tenho hoje da vida. Pronta para ser mais uma vítima de abuso”.

O relato é da cuidadora Viviane de Oliveira, 38, moradora do Residencial Sirius, bairro na periferia de Campinas. Ela é uma das dezenas de mulheres que cruzaram com o Projeto Florescer, que nasceu dentro de uma unidade do Crami (Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância), e que tiveram a vida transformada.  


Dar perspectiva e mudar radicalmente a vida de mulheres em vulnerabilidade social é o resultado que o grupo vem obtendo desde 2021, quando iniciou na região do Campo Grande. Resultado que se expressa em todas as faixas etárias, e que mostra que não há idade para se colocar fora de uma situação de opressão.

Creuza Santos Silva, por exemplo, já é idosa. A dona de casa tem 65 anos, mas foi ao 63 que se descobriu uma nova pessoa.

 “Perdi meu esposo e fiquei com duas crianças pequenas para cuidar, meus netos. Um deles tem 13 anos, mas tinha três quando o avô morreu. O outro tem 23, tinha 13 na época. E foi só quando eu conheci o Florescer que me reergui. Aprendi a viver sozinha, sem o marido, a criar os netos e filhos. Aprendi a conviver mais com as pessoas, a falar. Eu não tinha amizades e foi ali [no projeto] que eu melhorei em tudo, educação, comportamento, atividade. Eu renasci para uma nova vida, e costumo dizer que sem o Florescer, acaba a Creuza”, conta emocionada.


A mudança de vida ecoada por Creuza e Viviane é protagonizado por mentes e mãos como da psicóloga clínica Fabiana Belitani, de 46 anos, que coordena o Florescer.

Durante 20 anos ele trabalhou como psicóloga social no Crami, onde recebeu a missão de dirigir o Projeto Florescer. Hoje, para ela, a atividade é uma oportunidade de luta e de fortalecimento.

“Para mim é muito importante o significado desse projeto tem várias camadas, e a mais profunda delas é a minha relação afetiva com o feminino, com a luta da mulher, com essa sororidade, de se encontrar através das dores, se reconhecer e se fortalecer. Para além das questões profissionais, da psicologia, tem a questão de uma paixão, de uma militância”, conta.

Um motivo para existir 
Relatos de três das mulheres envolvidas no projeto demonstram a formação elementar – mas necessária - que o Florescer proporciona.

O projeto começou com cerca de 12 participantes no primeiro ano, em um espaço no Jardim Florence. No segundo ano, o número de participantes já saltou para 22.

São mulheres que, através da comunicação proposta pelo grupo, olharam pela primeira vez para o mundo com uma visão externa ao contexto ao qual elas estavam inseridas desde crianças, e enxergaram algo além da condição de submissão.

Viviane, por exemplo, conta que criou condições para ajudar uma vizinha que vivia em situação de violência psicológica. O bairro em que ela vive é um dos mais carentes da cidade.

“Uma vizinha minha estava sofrendo situação de violência psicológica. Todo dia eu ouvia os gritos do marido com ela, o clima de tensão que era dentro da casa. Eu consegui ajudá-la a entender que ela não era obrigada a passar por isso”, conta.

Em outra ocasião, ela cita que motivou uma mulher a comprar um sapato que gostou, o que não faria antes por “medo do marido”.

“Nós estávamos na loja e ela pegou um sapato preto. Eu disse ‘nossa, que sapato lindo’, por que você não leva? Ela respondeu que o marido não gostava da cor preta, e que se ela usasse poderia até apanhar”, disse Viviane.

A motivação proposta pelo Florescer é absurdamente grande, a ponto de levar Viviane a registrar sua história em um livro, que ela guarda com amor entre outros volumes que tem em casa. Ela conclui dizendo que tem vontade de lançar mais um livro, com mais detalhes da vida que inspirem outras mulheres.


Já a dona Creuza não vê a hora do projeto voltar para participar das rodas de conversa e das brincadeiras. O retorno do Florescer, que deve acontecer no segundo semestre, depende, no entanto, de uma parceria a ser fechada com a FEAC (Federação das Entidades Assistenciais de Campinas).

De acordo com a assessoria de comunicação da FEAC, o projeto está para ser fechado com o Crami, para que seja realizado pelo terceiro ano.

Dia da mulher  
“Uma das dimensões é a gente pensar em datas que nos façam refletir, lembrar, fazer mobilizações mais incisivas sobre o tema. Nos interessa que no cotidiano isso seja sempre pautado, mas a data é ainda muito importante, porque é nesse momento que a gente consegue uma mobilização maior, uma visibilidade maior e a agenda aberta às nossas demandas”, conclui.

“Foi muito importante na minha vida. Me abriu uma visão completamente diferente, de aceitar as coisas novas na minha vida. Me ajudou a ter uma visão sobre relacionamento, sobre abuso, sobre relacionamentos, amizades. O projeto me ajudou até a sair de uma depressão”, conta a ajudante geral Verli Teixeira de Sousa, 44.

Verli, última a conversar com a reportagem, não via tanta importância no dia da mulher, e não tem vergonha de dizer isso. Seu relato foi colocado no fim da reportagem pois ela retrata o que de fato é curioso e produto principal do Florescer. Mudar olhares e vidas – nas palavras das entrevistadas.

“Eu que nãi ligava para o dia da mulher, hoje sinto como se fosse meu aniversário. É um dia especial para mim, me sinto feliz. Sentir-se feliz, eu que saí de começo de depressão, é precioso”, conclui.

“Eu não sabia nada, não sabia do que era capaz. Eu só sabia ser do lar, limpar casa e cuidar de filhos. Se não fosse pelo projeto, eu não sei se teria a visão que tenho hoje da vida. Pronta para ser mais uma vítima de abuso”.

O relato é da cuidadora Viviane de Oliveira, 38, moradora do Residencial Sirius, bairro na periferia de Campinas. Ela é uma das dezenas de mulheres que cruzaram com o Projeto Florescer, que nasceu dentro de uma unidade do Crami (Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância), e que tiveram a vida transformada.  


Dar perspectiva e mudar radicalmente a vida de mulheres em vulnerabilidade social é o resultado que o grupo vem obtendo desde 2021, quando iniciou na região do Campo Grande. Resultado que se expressa em todas as faixas etárias, e que mostra que não há idade para se colocar fora de uma situação de opressão.

Creuza Santos Silva, por exemplo, já é idosa. A dona de casa tem 65 anos, mas foi ao 63 que se descobriu uma nova pessoa.

 “Perdi meu esposo e fiquei com duas crianças pequenas para cuidar, meus netos. Um deles tem 13 anos, mas tinha três quando o avô morreu. O outro tem 23, tinha 13 na época. E foi só quando eu conheci o Florescer que me reergui. Aprendi a viver sozinha, sem o marido, a criar os netos e filhos. Aprendi a conviver mais com as pessoas, a falar. Eu não tinha amizades e foi ali [no projeto] que eu melhorei em tudo, educação, comportamento, atividade. Eu renasci para uma nova vida, e costumo dizer que sem o Florescer, acaba a Creuza”, conta emocionada.


A mudança de vida ecoada por Creuza e Viviane é protagonizado por mentes e mãos como da psicóloga clínica Fabiana Belitani, de 46 anos, que coordena o Florescer.

Durante 20 anos ele trabalhou como psicóloga social no Crami, onde recebeu a missão de dirigir o Projeto Florescer. Hoje, para ela, a atividade é uma oportunidade de luta e de fortalecimento.

“Para mim é muito importante o significado desse projeto tem várias camadas, e a mais profunda delas é a minha relação afetiva com o feminino, com a luta da mulher, com essa sororidade, de se encontrar através das dores, se reconhecer e se fortalecer. Para além das questões profissionais, da psicologia, tem a questão de uma paixão, de uma militância”, conta.

Um motivo para existir 
Relatos de três das mulheres envolvidas no projeto demonstram a formação elementar – mas necessária - que o Florescer proporciona.

O projeto começou com cerca de 12 participantes no primeiro ano, em um espaço no Jardim Florence. No segundo ano, o número de participantes já saltou para 22.

São mulheres que, através da comunicação proposta pelo grupo, olharam pela primeira vez para o mundo com uma visão externa ao contexto ao qual elas estavam inseridas desde crianças, e enxergaram algo além da condição de submissão.

Viviane, por exemplo, conta que criou condições para ajudar uma vizinha que vivia em situação de violência psicológica. O bairro em que ela vive é um dos mais carentes da cidade.

“Uma vizinha minha estava sofrendo situação de violência psicológica. Todo dia eu ouvia os gritos do marido com ela, o clima de tensão que era dentro da casa. Eu consegui ajudá-la a entender que ela não era obrigada a passar por isso”, conta.

Em outra ocasião, ela cita que motivou uma mulher a comprar um sapato que gostou, o que não faria antes por “medo do marido”.

“Nós estávamos na loja e ela pegou um sapato preto. Eu disse ‘nossa, que sapato lindo’, por que você não leva? Ela respondeu que o marido não gostava da cor preta, e que se ela usasse poderia até apanhar”, disse Viviane.

A motivação proposta pelo Florescer é absurdamente grande, a ponto de levar Viviane a registrar sua história em um livro, que ela guarda com amor entre outros volumes que tem em casa. Ela conclui dizendo que tem vontade de lançar mais um livro, com mais detalhes da vida que inspirem outras mulheres.


Já a dona Creuza não vê a hora do projeto voltar para participar das rodas de conversa e das brincadeiras. O retorno do Florescer, que deve acontecer no segundo semestre, depende, no entanto, de uma parceria a ser fechada com a FEAC (Federação das Entidades Assistenciais de Campinas).

De acordo com a assessoria de comunicação da FEAC, o projeto está para ser fechado com o Crami, para que seja realizado pelo terceiro ano.

Dia da mulher  
“Uma das dimensões é a gente pensar em datas que nos façam refletir, lembrar, fazer mobilizações mais incisivas sobre o tema. Nos interessa que no cotidiano isso seja sempre pautado, mas a data é ainda muito importante, porque é nesse momento que a gente consegue uma mobilização maior, uma visibilidade maior e a agenda aberta às nossas demandas”, conclui.

“Foi muito importante na minha vida. Me abriu uma visão completamente diferente, de aceitar as coisas novas na minha vida. Me ajudou a ter uma visão sobre relacionamento, sobre abuso, sobre relacionamentos, amizades. O projeto me ajudou até a sair de uma depressão”, conta a ajudante geral Verli Teixeira de Sousa, 44.

Verli, última a conversar com a reportagem, não via tanta importância no dia da mulher, e não tem vergonha de dizer isso. Seu relato foi colocado no fim da reportagem pois ela retrata o que de fato é curioso e produto principal do Florescer. Mudar olhares e vidas – nas palavras das entrevistadas.

“Eu que nãi ligava para o dia da mulher, hoje sinto como se fosse meu aniversário. É um dia especial para mim, me sinto feliz. Sentir-se feliz, eu que saí de começo de depressão, é precioso”, conclui.

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