02 de novembro de 2026
EM DEZ ANOS

Número de brasileiros com obesidade atendidos no SUS aumenta 259%

Por Patrícia Pasquini | da Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min
Agência Brasil
São Paulo têm 1,74 milhão de pessoas com obesidade em atendimento

O número de brasileiros com obesidade monitorados pelo Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), do Ministério da Saúde, passou de 3,09 milhões em 2016 para 11,12 milhões neste ano - mais de um terço (36%) de todo o público adulto acompanhado no sistema. A alta no período foi de 259%.

O Sisvan reúne informações sobre o estado nutricional da população atendida na Atenção Primária à Saúde no SUS (Sistema Único de Saúde).

No mesmo período, os indicadores de sobrepeso saltaram de cerca de 4,19 milhões para 10,76 milhões —elevação de 156,8%.

Juntas, as duas condições somam 21,88 milhões de indivíduos. O dado revela que 71,5% dos adultos assistidos pelo Sisvan estão acima do peso adequado.

O excesso de peso abrange os dois níveis: sobrepeso e obesidade. É considerada com sobrepeso uma pessoa que tenha IMC (índice de massa corporal) de 25 a 29,9; na obesidade, considerada doença crônica inflamatória e multifatorial, o índice é igual ou superior a 30. O indicador é calculado dividindo o peso dividido pelo quadrado da altura.

O endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade e vice-presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica), diz que os gargalos da assistência à condição no SUS vão desde a escassez de medicamentos até a falta de capacitação profissional.

De acordo com o médico, a rede pública carece de um protocolo de tratamento clínico unificado e abrangente para os quadros agudos de excesso de peso. Como a cirurgia bariátrica é indicada apenas para casos de obesidade grave, a maior parte da população afetada fica sem amparo. Além disso, o acesso ao procedimento é desigual e marcado por filas de espera, que variam em tempo e tamanho conforme a região do país.

Segundo Halpern, mesmo para os pacientes que conseguem fazer a cirurgia, o suporte pós-operatório é deficiente, com destaque para a ausência de fornecimento regular de suplementos polivitamínicos essenciais.

"Não há linhas de cuidado bem trabalhadas", afirma o endocrinologista, acrescentando que há algumas ilhas de excelência na abordagem da mudança de estilo de vida no SUS, mas nada estrutural. "E os profissionais de saúde têm pouca educação em obesidade."

A obesidade é associada a mais de 240 doenças, entre elas diferentes tipos de câncer e danos cardiológicos, e redução de expectativa de vida.

A capacidade dos sistemas de saúde de oferecer prevenção, acompanhamento e tratamento adequado à população foi um dos temas abordados durante o XVI Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado entre 28 e 31 de outubro, em Salvador.

Em 24 das 27 unidades federativas, o total de adultos com obesidade em atendimento na atenção básica já supera o de pessoas com o peso considerado adequado. Em 18 estados brasileiros, pelo menos 70% dos assistidos pelo sistema apresentam excesso de peso (sobrepeso ou obesidade).

O Rio Grande do Sul lidera os índices nacionais: 42,6% dos acompanhados apresentam obesidade e 75,9%, excesso de peso.

São Paulo e Rio de Janeiro têm, respectivamente, 40,5% (1,74 milhão) e 40,1% (759,2 mil) de pessoas com obesidade em atendimento. Minas Gerais contabiliza 1,16 milhão (34,6%), e a Bahia, 735,3 mil (31,9%).

Quando analisada a taxa geral de excesso de peso em 2026, as marcas mais altas nos registros do Sisvan ficam com o Rio Grande do Norte (75,5%), Amapá (74,5%) e São Paulo (74,3%).

Os números estaduais refletem a tendência nacional: em dez anos, a taxa nacional de obesidade escalou de 25,1% em 2016 para os atuais 36,4%. Esta é a primeira vez que os registros de obesidade (11,12 milhões) superaram os de sobrepeso (10,76 milhões).

"Sabemos que a obesidade cresce e continuará subindo no Brasil. O que tentaremos fazer é que essa curva seja menos pronunciada", diz o especialista.

Para combater a obesidade são necessárias ações simultâneas de prevenção e de tratamento, explica Bruno Halpern. A primeira frente envolve políticas públicas como incentivar o consumo de alimentos naturais e desestimular o de ultraprocessados. A segunda exige redes de cuidado efetivas para garantir qualidade de vida a quem já vive com a doença.

A obesidade no mundo

No congresso realizado em Salvador, Halpern apresentou os dados globais do estudo MAPPS II (sigla em inglês para Management and Advocacy for Providers, Patients and Systems), da Federação Mundial da Obesidade.

A pesquisa avalia as políticas públicas e o tratamento contra a obesidade em vários países. Os resultados revelam que os governos dão pouco apoio financeiro ao setor, com notas entre 1 e 3 em uma escala até 10.

Segundo o especialista, a falta de verba obriga os pacientes a pagarem pelo próprio tratamento, o que exclui as populações de baixa renda, sobretudo em nações em desenvolvimento.

O levantamento também apontou outras barreiras para o controle da doença. Entre elas estão falta de equipes multidisciplinares e de integração entre os ministérios da Saúde, Educação e Economia; precariedade dos serviços públicos; e preconceito e estigma contra o excesso de peso, inclusive por parte dos profissionais de saúde.

Os resultados globais do MAPPS II serão publicados em 4 de março de 2027, Dia Mundial da Obesidade. A federação também lancará um relatório específico sobre o Brasil ao longo do próximo ano.