02 de novembro de 2026
Editorial | Eleições

O Brasil escolheu Lula ou recusou Flávio Bolsonaro?

Por Opinião | Anderson França
| Tempo de leitura: 6 min
Divulgação
O Brasil escolheu Lula ou recusou Flávio Bolsonaro?

Passada uma semana do segundo turno, a poeira começa a baixar e abre espaço para a pergunta que interessa a governo, oposição e eleitor: o Brasil escolheu Lula ou recusou Flávio Bolsonaro? É sobre essa dúvida, menos óbvia do que parece, que trata a coluna deste domingo.

Os números finais são conhecidos. Lula foi reeleito com 64,2 milhões de votos, 51,79% dos válidos, contra 59,8 milhões, ou 48,21%, do senador do PL. Uma diferença de cerca de 4,4 milhões de votos em um país de mais de 150 milhões de eleitores. O dado mais revelador, porém, vem de três semanas antes. No primeiro turno, Flávio havia terminado à frente, com 47,03% contra 45,16%. A virada no segundo turno é inédita desde a redemocratização. Algo mudou no meio do caminho, e vale entender o quê.

As pesquisas oferecem uma pista forte. Na reta final, a Quaest mostrava que mais da metade do eleitorado dizia não votar em Flávio de jeito nenhum. Entre as mulheres, a rejeição ao candidato do PL chegava a 57%. Ainda em janeiro, antes da campanha começar, a mesma pesquisa indicava que 46% dos brasileiros tinham mais medo da volta da família Bolsonaro ao poder do que da continuidade de Lula. O sobrenome, que levou Flávio ao segundo turno, parece ter sido também o teto que ele não conseguiu romper.

Há outro sinal na mesma direção. A abstenção caiu entre um turno e outro, e mais eleitores foram às urnas no segundo turno do que no primeiro. Quando a participação cresce numa disputa polarizada, nem sempre é entusiasmo que move o eleitor. Muitas vezes, é a vontade de impedir que o outro lado vença.

Nada disso faz do resultado uma consagração do governo. Às vésperas da votação, apenas 36% dos entrevistados pela Quaest tinham uma visão positiva da gestão, contra 38% de visão negativa. É pouco para um presidente que acaba de conquistar um quarto mandato. Uma parte relevante dos votos que garantiram a reeleição veio de quem não está satisfeito com o governo, mas considerou a alternativa pior.

É verdade que a aprovação ao trabalho do presidente subiu na reta final, chegando a 48% na véspera da eleição. Mas essa recuperação não caiu do céu. Ela coincidiu com uma sequência de anúncios de forte apelo popular. A cerca de duas semanas do primeiro turno, depois de três anos e meio sem reajuste, o Bolsa Família ganhou aumento de 15%, e o benefício mínimo passou de R$ 600 para R$ 691. A nove dias da primeira votação, o governo liberou R$ 15 bilhões para comprar dívidas de pessoas físicas pelo Desenrola 3.0. Vieram ainda a subvenção ao diesel, o fim da chamada taxa das blusinhas e, a 12 dias do segundo turno, um pacote para microempreendedores com a proposta de perdoar R$ 12,6 bilhões em dívidas tributárias de 3,6 milhões de MEIs. Lula soube usar a máquina que tinha nas mãos, e usou com precisão de relógio.

Há quem discorde dessa leitura. O governo sustenta que nenhuma gestão deixa de governar em ano de eleição e que o reajuste do Bolsa Família apenas recompôs a inflação acumulada. É um argumento que merece ser ouvido, e é fato que, até aqui, nenhuma dessas medidas foi declarada ilegal. Mas a lei não é a única régua. A disputa eleitoral pressupõe condições minimamente iguais, e é difícil falar em igualdade quando um dos candidatos dispõe do orçamento público, no calendário que lhe convém, enquanto o outro só pode oferecer promessas. Pode ser legal, mas está longe de ser moral. O próprio presidente, em julho, chamou a lei eleitoral de “papagaiada” ao reclamar da proibição de inaugurar obras. O partido Novo contabiliza 35 medidas com impacto financeiro neste ano, 12 delas em pleno período de campanha, e o TSE analisa ao menos 15 ações sobre o tema. Vale lembrar que a prática não é exclusiva de um lado: em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro elevou o Auxílio Brasil para R$ 600 a poucos meses da eleição. O problema é de um sistema que permite, e não apenas de quem se aproveita dele.

Para quem governa, a lição é clara. Um mandato conquistado em boa parte pelo medo do adversário e pelo impulso da caneta é um mandato frágil, que precisa ser legitimado no dia a dia, com resultados e com contas que fechem, e não com discurso de vitória. Para a oposição, a lição é igualmente clara. Aqui mesmo no interior paulista, Flávio venceu com folga, e no estado de São Paulo como um todo ele somou mais de 53% dos votos válidos. A direita tem eleitorado, tem força e tem território. O que lhe faltou foi um nome capaz de ir além do próprio grupo.

A esquerda, por sua vez, não tem muito o que comemorar nesse quesito. Em mais de duas décadas de protagonismo, não conseguiu formar uma nova liderança capaz de disputar a Presidência com chances reais, e precisou apostar mais uma vez no mesmo nome. Lula completou 81 anos nesta semana, dias depois de ser reeleito, e terminará o novo mandato aos 85. Não se trata de preconceito com a idade, mas de uma pergunta legítima diante do tamanho da tarefa: terá o presidente energia suficiente para conduzir, por mais quatro anos, um país com contas públicas pressionadas, um Congresso fragmentado e uma sociedade dividida ao meio? Os dois campos políticos chegaram a 2026 presos ao passado, um ao sobrenome, o outro a um único líder. E um país que não renova suas lideranças corre o risco de continuar repetindo as mesmas disputas.

A pergunta que abre esta coluna talvez não tenha resposta única. Lula venceu, e Flávio perdeu. Mas a vitória de um foi construída sobre a rejeição ao outro e sobre o uso habilidoso da máquina pública, e a derrota do outro foi selada por um sobrenome que pesa mais do que soma. O retrato que fica é o de um eleitorado cansado, desconfiado e que, cada vez mais, escolhe contra alguém, e não a favor de alguém.

Encerrada a apuração, porém, a disputa precisa dar lugar à responsabilidade. Gostando ou não, tendo votado nele ou não, aprovando ou não o seu governo, Lula será o presidente de todos os brasileiros pelos próximos quatro anos. É ele quem está no comando do avião chamado Brasil, e todos nós, sem exceção, estamos a bordo como passageiros. Não há poltrona reservada para quem votou contra, nem paraquedas para quem discorda do piloto. Se o avião cair, sabemos qual será o resultado final, e ele não escolherá eleitores de um lado ou de outro. Por isso, nos resta torcer para que a viagem dê certo. Torcer, sim, mas sem fechar os olhos: cobrando, fiscalizando e lembrando, a cada turbulência, que o comandante deve satisfação a quem está na cabine de passageiros.

E você, eleitor: no último domingo, votou por convicção ou para evitar o que considerava pior? Acha correto que um governo anuncie benefícios às vésperas da eleição? E, independentemente do seu voto, está disposto a torcer pelo sucesso do país, mesmo discordando de quem está no comando?

Anderson França

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