Botucatu sai mais forte das urnas e amplia sua voz política.
Uma semana depois das eleições, é possível afirmar que Botucatu saiu das urnas politicamente maior do que entrou. O município conseguiu um feito que muitas cidades mais populosas e economicamente maiores não alcançaram: elegeu representantes diretamente ligados à cidade para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
João Cury Neto (MDB) foi eleito deputado federal com 130.915 votos em todo o Estado. Mário Pardini (PSD) conquistou uma cadeira de deputado estadual com 89.558 votos. Em Botucatu, João Cury recebeu 32.104 votos, enquanto Pardini alcançou 49.330 votos.
Os resultados representam mais do que vitórias individuais. Eles colocam Botucatu em uma posição privilegiada na interlocução com os governos estadual e federal, criando pontes diretas com São Paulo e Brasília.
Representação que cidades maiores não conquistaram
Com população estimada em aproximadamente 151,6 mil habitantes, Botucatu conseguiu eleger representantes para as duas casas legislativas. O resultado ganha relevância quando comparado ao desempenho de municípios maiores do interior paulista.
Bauru, com população estimada em aproximadamente 394 mil habitantes, elegeu Capitão Augusto (PL) para deputado federal, com 153.745 votos em todo o Estado, mas ficou sem um representante diretamente ligado ao município na Assembleia Legislativa.
Piracicaba, com mais de 442 mil habitantes, reelegeu dois deputados estaduais: Professora Bebel (PT), com 142.001 votos, e Alex Madureira (PL), com 122.704 votos. Apesar da expressiva representação na Assembleia Legislativa, o município não conseguiu eleger um deputado federal diretamente ligado à cidade.
Limeira, com população estimada em aproximadamente 301 mil habitantes, reelegeu Miguel Lombardi (PL) para deputado federal, com 96.333 votos em todo o Estado. A cidade, no entanto, não conseguiu eleger um representante próprio para a Assembleia Legislativa.
Taubaté, com mais de 323 mil habitantes, e São Carlos, com aproximadamente 267 mil moradores, não elegeram candidatos diretamente ligados aos municípios para a Câmara dos Deputados ou para a Assembleia Legislativa.
Na região de Botucatu, o cenário também chama atenção. Itapetininga, com aproximadamente 164,7 mil habitantes, não elegeu representante próprio para nenhuma das duas casas legislativas. Jaú, com cerca de 137,5 mil habitantes, e Avaré, com aproximadamente 96,8 mil, também ficaram sem deputados federais ou estaduais diretamente ligados aos municípios.
A comparação não deve servir para diminuir qualquer cidade. Ela demonstra, entretanto, que população e força econômica, isoladamente, não garantem representação política. Para eleger deputados é necessário organização, participação popular, construção de candidaturas competitivas e compreensão da importância estratégica do voto.
Abstenção diminuiu em Botucatu
Outro dado positivo foi a melhora da participação eleitoral no município.
Em 2024, quando foram realizadas as eleições municipais, Botucatu possuía 110.340 eleitores aptos. Naquele pleito, 78.970 pessoas compareceram às urnas e 31.370 não votaram, fazendo a abstenção chegar a 28,43%.
Nas eleições gerais de 2026, com um eleitorado de 111.048 pessoas, o comparecimento subiu para 85.728 eleitores. O número de ausentes caiu para 25.320, equivalente a 22,80% do eleitorado.
Embora sejam eleições de naturezas diferentes, a evolução merece ser registrada. Botucatu levou 6.758 eleitores a mais às urnas, enquanto o número de ausentes caiu em 6.050 pessoas. A taxa de abstenção diminuiu 5,63 pontos percentuais.
Esse avanço demonstra que uma parcela maior da população compreendeu que participar do processo eleitoral é fundamental para os destinos da cidade. Eleição não pode ser tratada apenas como uma disputa de candidatos. É o momento em que o município define o tamanho de sua voz nos espaços em que são tomadas decisões sobre recursos, programas e políticas públicas.
Votar em representantes da cidade
Defender a importância da representação local não significa sustentar um voto baseado exclusivamente no local de nascimento ou no endereço eleitoral do candidato. Competência, honestidade, propostas, trajetória e compromisso público precisam continuar sendo critérios essenciais.
Mas, quando candidatos preparados possuem ligação efetiva com o município, conhecem seus problemas e mantêm canais permanentes com a população, elegê-los representa uma oportunidade concreta de ampliar a capacidade de articulação da cidade.
Deputados representam todo o Estado de São Paulo. Isso não impede que mantenham atenção especial às regiões onde construíram suas trajetórias e receberam a confiança dos eleitores.
Botucatu possui demandas que exigem participação dos governos estadual e federal e tornam essa articulação ainda mais necessária. Entre as prioridades estão a mobilidade urbana e o fortalecimento dos equipamentos de saúde, especialmente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB), que atende 68 municípios da região. Sua importância regional exige atenção permanente e recursos para melhorias na infraestrutura, modernização dos equipamentos e ampliação da capacidade de atendimento à população.
Ter representantes próximos facilita o diálogo, mas também aumenta a possibilidade de cobrança. O eleitor sabe a quem procurar, de quem exigir explicações e quem responsabilizar quando os compromissos assumidos não forem cumpridos.
Vitória traz responsabilidade
As urnas entregaram a Botucatu uma oportunidade histórica, mas a eleição não pode ser considerada um ponto de chegada. Ela é o começo de uma responsabilidade muito maior.
João Cury e Mário Pardini precisarão transformar a confiança recebida em trabalho, presença, recursos, projetos e resultados. As diferenças partidárias ou políticas não podem impedir a construção de uma agenda comum para Botucatu e para os municípios da região.
Da mesma forma, a população não pode encerrar sua participação depois de votar. Será necessário acompanhar os mandatos, fiscalizar decisões, cobrar posicionamentos e verificar se a representação conquistada produzirá melhorias concretas.
Botucatu saiu maior das urnas porque demonstrou capacidade de mobilização, reduziu a abstenção e conquistou espaço político em São Paulo e Brasília. Agora, terá de mostrar maturidade para aproveitar essa representação.
Eleger dois deputados diretamente ligados ao município é uma conquista importante. Fazer com que essa força política se transforme em benefícios para toda a população será o verdadeiro desafio dos próximos quatro anos.
Botucatu fez sua parte nas urnas. A partir de agora, começa a parte dos eleitos.
Por Anderson França
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