A ampliação do acesso a leitos hospitalares em Bauru não depende necessariamente da construção de um novo hospital municipal, mas do aproveitamento de estruturas já existentes e de uma melhor organização dos atendimentos. A avaliação é do médico José Sebastião dos Santos, diretor pro tempore da Faculdade de Medicina de Bauru da Universidade de São Paulo (FMBru-USP), que defende a atuação conjunta entre universidades, Prefeitura, governo estadual e municípios da região para enfrentar os gargalos da assistência.
Segundo o diretor, Bauru dispõe de estruturas que podem ser ampliadas e reorganizadas para atender à demanda regional. Entre as possibilidades estão a expansão do Hospital das Clínicas (HC), a ativação de leitos no Instituto Lauro de Souza Lima e a transferência de atendimentos ambulatoriais para outros espaços, liberando áreas hospitalares para internações.
"A questão central não é construir mais estrutura, mas fazer a rede de saúde funcionar melhor com convênios, leitos e serviços existentes para atender melhor e mais rápido a população", defende.
Para o professor Sebastião, a prioridade deve ser identificar as necessidades assistenciais e estabelecer responsabilidades entre os diferentes níveis de governo e as instituições de saúde. Na avaliação dele, a construção de um novo hospital exige estudos prévios sobre a demanda, a capacidade instalada, os custos de implantação e as despesas permanentes, especialmente diante das limitações orçamentárias do município.
Antes de decidir pela construção, o especialista em saúde pública considera necessário estruturar uma rede em que cada instituição cumpra seu papel, os recursos sejam utilizados de forma racional e os pacientes tenham acesso ao atendimento adequado no tempo necessário.
"Não é só olhar o número de leitos, mas o que a gente faz no leito e como utiliza esse leito", sintetiza.
ESTRUTURAS EXISTENTES PODEM AMPLIAR A OFERTA
Um dos exemplos citados pelo diretor é o Hospital das Clínicas de Bauru, cuja capacidade, segundo ele, passou de 48 para 183 leitos em aproximadamente três anos, com investimentos e custeio do governo estadual. A estrutura ainda tem potencial de expansão para mais 270 leitos, conforme o planejamento apresentado por ele.
"Você não precisa construir um hospital, já está construído", afirma, ao defender a articulação entre a Prefeitura, a Diretoria Regional de Saúde (DRS-6), o governo estadual e universidades para viabilizar novos investimentos e ampliar os serviços.
O diretor também aponta possibilidades de expansão no Instituto Lauro de Souza Lima, onde, segundo ele, há cerca de 40 leitos que podem ser ativados. A instituição já mantém cooperação acadêmica com a Faculdade de Medicina da USP, e a proposta é avançar para um convênio de caráter assistencial, ampliando sua participação na rede pública de saúde.
Outra alternativa mencionada é reorganizar os espaços utilizados pelo HC. A transferência de ambulatórios para outras áreas anexas e vizinhas, por exemplo, poderia liberar capacidade para internações.
O aproveitamento de estruturas já construídas, com investimentos direcionados às necessidades identificadas, poderia contribuir para reduzir o tempo de espera por exames e cirurgias, que, em alguns casos, chega há anos. Entre as demandas específicas da região, o médico destaca a neurocirurgia, área em que pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente vítimas de traumas, precisam ser encaminhados a outros municípios, como Botucatu.
PARCERIAS ENTRE PREFEITURA, ESTADO E UNIVERSIDADES
Para viabilizar a ampliação dos serviços, Sebastião considera fundamental que os municípios da região atuem de forma coordenada nas negociações com os governos estadual e federal. Segundo ele, uma mobilização conjunta dos prefeitos da região pode fortalecer as reivindicações por recursos e serviços, uma vez que os hospitais atendem pacientes de diferentes cidades.
Na avaliação do diretor, a universidade pode contribuir com conhecimento técnico, formação de profissionais, contratação de especialistas e organização dos fluxos assistenciais. Ao Estado caberia participar do financiamento e da estruturação dos serviços hospitalares, enquanto os municípios poderiam colaborar na articulação regional e nos encaminhamentos.
Sebastião ressalta que a cooperação também exige mecanismos que permitam o trabalho conjunto das equipes, o compartilhamento de informações e a continuidade do cuidado entre hospitais, unidades básicas de saúde e serviços especializados.
Um exemplo é a integração dos sistemas de informação. Sem essa comunicação, os pacientes podem repetir exames já realizados em outras unidades, gerando custos adicionais e atrasos no atendimento.
"Você precisa estar integrado: município, Estado, universidade e até o governo federal", afirma, destacando que a União também participa do financiamento da formação de especialistas e de ações da atenção básica.
FORTALECER A ATENÇÃO BÁSICA É ESSENCIAL PARA NÃO SOBRECARREGAR OS HOSPITAIS
A reorganização das vagas hospitalares em Bauru, na avaliação do professor José Sebastião dos Santos, diretor da Faculdade de Medicina da USP Bauru, precisa ser acompanhada pelo fortalecimento da atenção básica. Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e equipes de Saúde da Família devem atuar na prevenção, no acompanhamento de doenças crônicas e na resolução de problemas antes que evoluam para situações de urgência, segundo ele.
O diretor avalia que a cobertura da atenção primária em Bauru está aquém do necessário e estima que alcance cerca de 40%. Para ele, a fragilidade desse nível de atendimento contribui para a sobrecarga das UPAs e dos hospitais, além de aumentar os custos para os pacientes e para o sistema público.
"Se você não previne ou não promove saúde, as pessoas adoecem. E aí sobrecarrega a UPA. Fica caro para o indivíduo, fica caro para o sistema", afirma.
Nesse contexto, a formação de médicos especialistas em áreas como Saúde da Família, Clínica Médica, Emergência, Pediatria e Ginecologia também poderia contribuir para qualificar o atendimento municipal. Sebastião defende que os profissionais formados pela universidade tenham condições de atuar nos serviços públicos, em parceria com docentes e equipes assistenciais.
Essa articulação permitiria discutir casos complexos, orientar os encaminhamentos e reduzir a peregrinação dos pacientes entre diferentes unidades em busca de atendimento.
A unificação dos sistemas de informação da saúde no município em um prontuário único do paciente também foi apontada como forma de evitar desperdício de dinheiro e tempo, uma vez que exames feitos em UPAs não precisariam ser repetidos em hospitais, garantindo um histórico integrado do paciente.
USO ADEQUADO DOS LEITOS PODE REDUZIR A ESPERA POR INTERNAÇÕES
Sebastião também defende mudanças na maneira como os leitos disponíveis são utilizados. Segundo ele, pacientes que já não precisam de cuidados hospitalares de maior complexidade podem, em determinadas situações, continuar o tratamento em casa ou em unidades de menor complexidade, desde que apresentem condições clínicas adequadas e tenham acompanhamento.
Como exemplo, cita pessoas que permanecem internadas apenas para receber antibióticos, embora possam, em casos selecionados, realizar o tratamento em domicílio ou em serviços de saúde preparados para esse atendimento.
A liberação de leitos ocupados por pacientes que não necessitam mais de internação hospitalar permitiria atender pessoas que aguardam vagas, inclusive aquelas que permanecem por longos períodos nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
O médico também aponta a possibilidade de ampliar procedimentos ambulatoriais e cirurgias de curta permanência, quando clinicamente indicados, evitando internações desnecessárias. Para isso, considera importante rever protocolos, organizar os encaminhamentos e garantir a continuidade do atendimento fora do ambiente hospitalar.
A proposta é que Bauru avance na elaboração de um plano regional de saúde, com a participação das universidades, dos governos municipais, estadual e federal e dos prestadores do SUS. O objetivo é ampliar a oferta de atendimento e reduzir a espera sem assumir, de imediato, os custos de implantação e manutenção de um novo hospital municipal.
O QUE PODE MELHORAR O TEMPO DE ESPERA NA SAÚDE EM BAURU
Aproveitar a estrutura existente
Ampliar a capacidade do HC e avaliar a ativação de leitos no Instituto Lauro de Souza Lima.
Integrar governos e universidades
Coordenar investimentos, encaminhamentos e responsabilidades entre os serviços.
Usar melhor os leitos
Avaliar tratamentos fora do ambiente hospitalar quando houver indicação clínica e acompanhamento adequado.
Fortalecer a atenção básica
Ampliar a capacidade de prevenção e acompanhamento para reduzir a pressão sobre UPAs e hospitais.
Integração Tecnológica e de Dados (Prontuário Único)
Unificar os sistemas de informação da saúde municipal para que exames feitos em UPAs não precisem ser repetidos em hospitais (o que gera desperdício de dinheiro e tempo), garantindo um histórico integrado do paciente.
Planejar antes de construir
Levantar a demanda, a capacidade disponível e os custos de implantação e manutenção de um novo hospital.