27 de outubro de 2026
CAVALO DE TROIA

Caso do lixo: Gaeco mostra pagamentos de R$ 4 milhões a empresa

Redação
| Tempo de leitura: 5 min

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público (MP) de São Paulo, apresentou novos elementos sobre o esquema de corrupção que está sendo investigado na Operação Cavalo de Troia, que apura ilegalidades na concessão dos serviços de resíduos sólidos (lixo) em Bauru. Em uma manifestação contrária à revogação da prisão preventiva de Renato Purini, ex-secretário municipal de Governo, o órgão detalha pagamentos de R$ 4,113 milhões realizados pela Estre Ambiental a uma empresa apontada pela investigação como de fachada.

Segundo as informações apresentadas pelo Ministério Público, os repasses foram feitos à empresa Core Intermediações e Assessoria entre dezembro de 2025 e setembro de 2026, na véspera da deflagração da primeira fase da operação. Para os investigadores, os pagamentos podem ter integrado um mecanismo de repasse de propina relacionado à concessão do lixo.

A manifestação foi elaborada no contexto do pedido da defesa de Purini para revogar a prisão preventiva. O Gaeco se posicionou pela manutenção da medida cautelar (prisão), apontando os pagamentos e as relações entre os envolvidos como elementos relevantes para a investigação. As suspeitas ainda dependem de apuração e eventual comprovação judicial.

Pagamento coincide com votação

Um dos pontos destacados pelo Ministério Público é a coincidência entre a data de um pagamento e o início da tramitação decisiva do projeto de concessão dos resíduos sólidos na Câmara Municipal de Bauru, em dezembro do ano passado.

De acordo com os dados descritos na manifestação, uma nota fiscal de R$ 750 mil foi emitida em 5 de dezembro de 2025 e paga no dia 8 daquele mês. Na mesma data, começou a sessão extraordinária da Câmara que tinha como principal item da pauta o projeto de lei relacionado à concessão.

A discussão se estendeu por aproximadamente 16 horas. Na primeira votação, realizada após uma longa sessão, a proposta foi aprovada por 11 votos favoráveis e 9 contrários. A segunda discussão ocorreu em 10 de dezembro, quando o projeto foi aprovado.

Na ocasião, Purini, então secretário de Governo, comandou as articulações e políticas em torno da proposta. Segundo o que foi apurado pelo Gaeco, ele cobrou a permanência dos vereadores no plenário para garantir quórum durante a discussão e os votos necessários à aprovação, que se deu por margem apertada. A investigação procura esclarecer se os pagamentos identificados pelo Gaeco guardam relação com a tramitação do projeto, ou seja, se houve vereador que recebeu propina para aprovar o projeto de lei autorizativo da concessão do lixo.

A coincidência entre o pagamento e a votação é um dos elementos que chamam a atenção na manifestação do MP, mas, isoladamente, não comprova que o dinheiro tenha sido utilizado para influenciar vereadores ou determinar o resultado da votação.

Camadas de repasses

Conforme a descrição dos investigadores, a Estre Ambiental transferiu os valores à Core, empresa que seria utilizada como intermediária. Um homem identificado como Jonathan Moga Pinto aparece como responsável pela estrutura empresarial, descrito na investigação como possível interposto.

Ainda segundo a manifestação, Purini teria indicado um advogado, que teria emitido notas fiscais referentes a serviços jurídicos destinados à Core. O Ministério Público procura esclarecer a finalidade efetiva desses serviços, a destinação dos recursos e os eventuais beneficiários finais.

A linha investigativa descrita aponta para uma possível estrutura de pagamentos em camadas: a empresa ligada ao contrato de resíduos sólidos realizaria os repasses à Core, que se relacionaria com o advogado por meio de notas fiscais, em um mecanismo que, segundo a suspeita ministerial, poderia ocultar a destinação dos recursos.

O documento também menciona uma nota de R$ 750 mil emitida pelo advogado. Não está esclarecido, a partir das informações divulgadas, se esse documento corresponde ao pagamento de mesmo valor realizado pela Estre Ambiental à Core em 8 de dezembro de 2025. Por isso, a relação entre as duas operações precisa ser estabelecida documentalmente.

O principal ponto ainda em aberto é a identificação de quem recebeu efetivamente os recursos e qual teria sido a contrapartida dos pagamentos. O Gaeco busca determinar se o dinheiro permaneceu com os intermediários, chegou a agentes públicos ou foi distribuído a outras pessoas.

Funcionário que fazia pagamentos colaborou

Informações apresentadas por um funcionário da Estre sob investigação fazem parte da montagem do quebra-cabeça. A colaboração dele com as investigações levou à flexibilização de medidas cautelares anteriormente impostas. A participação do funcionário pode contribuir para esclarecer como os pagamentos eram autorizados e executados, quais documentos lhes davam suporte e quem determinava as transferências. Os detalhes da colaboração e de seu alcance, porém, precisam ser confirmados a partir dos autos.

Renato Purini está preso preventivamente na Penitenciária II de Potim, no Vale do Paraíba. Ele já participou de um interrogatório no âmbito da investigação, mas permaneceu em silêncio por orientação da defesa.

A prisão preventiva não representa condenação. A responsabilidade de Purini e dos demais citados deverá ser definida no curso da apuração e, se houver denúncia, do processo judicial, com garantia do contraditório e da ampla defesa.

Entenda o caso

A Operação Cavalo de Troia investiga suspeitas de irregularidades na concessão dos serviços de resíduos sólidos (lixo) de Bauru, projeto estimado em R$ 4,8 bilhões ao longo de 30 anos. A primeira fase foi deflagrada em setembro de 2026, com cumprimento de mandados e prisões.

Entre os investigados e preso está Renato Purini, que ocupava a Secretaria Municipal de Governo e é marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD). A investigação alcança suspeitas relacionadas à estruturação da concessão e a possíveis pagamentos indevidos.

Com a nova manifestação, o Gaeco acrescenta à apuração uma trilha de pagamentos que soma R$ 4,1 milhões, além de relações entre empresas, intermediários e serviços formalmente descritos em notas fiscais.

O desafio central, a partir de agora, é esclarecer a destinação final do dinheiro, identificar eventuais beneficiários e demonstrar se os pagamentos tiveram relação direta com a concessão. A comprovação dessas conexões será determinante para definir a extensão das responsabilidades individuais no caso.