25 de outubro de 2026
COLUNISTA

Troque o síndico


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Neste domingo, 25 de outubro, os brasileiros voltarão às urnas para o segundo turno, e convém que todo eleitor de fé, seja católico, protestante, evangélico ou espírita, decida o voto à luz dos valores que professa. Para quem segue a Bíblia, o primeiro desses valores antecede qualquer programa de governo, porquanto consiste em reconhecer que cristão algum sustenta ídolos. Com efeito, o primeiro mandamento determina: "Não terás outros deuses diante de mim" (Êx 20.3), e a idolatria, que não se restringe a imagens de escultura, consiste em entregar a uma criatura a confiança que só o Criador merece, seja na arte, na religião, nos relacionamentos ou na política. Por isso, o salmista adverte contra a confiança em príncipes - "Não confieis em príncipes, nem em filhos de homens, em quem não há salvação" Sl 146.3. Quem trata um candidato como salvador da pátria incorre no risco de transformar o voto em um ato de culto.

Nesse sentido, a postura cristã na eleição assemelha-se à do condômino em uma assembleia do prédio, pois o síndico não é dono do prédio, mas um administrador escolhido para servir, que deve prestar contas. Quando o trabalho é insatisfatório, os moradores o substituem sem ódio e, se o sucessor também fracassar, procedem a uma nova troca, o que é salutar. A mesma lógica orienta o torcedor que pede a saída do técnico e o paciente que busca outro médico para acertar o diagnóstico, porquanto a nenhum deles ocorre adorar quem o serve, mas apenas avaliar seu trabalho.

A Escritura aprofunda essa imagem, já que Paulo descreve a autoridade como "ministro de Deus para teu bem" (Rm 13.4), e Jesus ensina que a grandeza está em servir (Mc 10.43). Na parábola do administrador, ademais, o Senhor exige: "Dá contas da tua mordomia" (Lc 16.2), donde se conclui que todo síndico, de um prédio ou de um país, é um mordomo que prestará contas. Por conseguinte, o cristão não age por paixão, mas busca "a paz da cidade" (Jr 29.7), isto é, o bem-estar da nação.

Votar, portanto, transcende a escolha de um candidato, porquanto constitui responsabilidade moral assumida diante de Deus, que exige consciência, prudência e compromisso com a verdade. A tradição cristã ilumina essa decisão, visto que Santo Agostinho ensinou que um povo se define pelo que ama em comum e é tanto melhor quanto mais nobre for esse amor, enquanto Santo Tomás de Aquino definiu a lei como ordenação da razão para o bem comum. São John Henry Newman chamou a consciência de "vigário originário de Cristo" e insistiu em formá-la bem; o beato Fulton Sheen lembrava que a fé não se separa das decisões concretas; e o papa Leão XIV, em junho, descreveu o bem comum como "forma social da dignidade humana". Segue-se que o cristão jamais vota por idolatria a um político, nem orienta seu voto por mera simpatia ou interesse pessoal, mas o pauta por princípios éticos e valores que promovam o bem comum.

O primeiro desses valores é a vida, que, sendo dom de Deus, deve ser respeitada da concepção à morte natural, o que inclui proteger a população da violência e os jovens das drogas, visto que nenhuma sociedade que descarta os indefesos é justa. O segundo é a família, fundada no matrimônio entre um homem e uma mulher e reconhecida como primeira comunidade de amor e educação. O terceiro é a atenção aos pobres e vulneráveis, pois as políticas públicas devem permitir que todos trabalhem, empreendam, estudem e superem a pobreza com dignidade. O quarto é a liberdade, inclusive a religiosa, que decorre da dignidade humana e garante a cada um viver a própria fé. O quinto é a honestidade com o dinheiro público, que pertence à sociedade; afinal, se Agostinho já indagava "sem justiça, que são os reinos senão grandes quadrilhas?", o cristão não pode tolerar a corrupção, o favorecimento ou o desvio que lesa os mais necessitados.

Embora não exista candidato perfeito, há princípios inegociáveis, motivo pelo qual cabe ao eleitor examinar, à luz desses valores, a trajetória e as propostas de cada candidato. O voto cristão, desse modo, não nasce da paixão, mas da consciência, e não visa ao interesse pessoal, mas ao bem comum, porque se responsabiliza pelo país que legará aos filhos e netos. Outrossim, seja quem for o eleito, o cristão deverá orar por ele (1Tm 2.1-2), o que não significa idolatrá-lo, mas reconhecer que também ele prestará contas aos condôminos e a Deus. Troque-se pois o síndico sempre que necessário, e que jamais seja ele alçado ao altar.