17 de outubro de 2026
OPINIÃO

Redes sociais: fábrica de ansiedade que cabe no bolso

Por Gregório José |
| Tempo de leitura: 2 min

O mundo colocou um aparelho na palma da mão e, em troca, entregou parte da própria tranquilidade. As redes sociais prometeram aproximar pessoas, democratizar a informação e dar voz a todos. Conseguiram fazer tudo isso em alguma medida. 

Mas também transformaram a atenção humana em mercadoria, a comparação em hábito e a indignação em combustível. O resultado é uma sociedade permanentemente conectada, mas nem por isso mais feliz, mais equilibrada ou mais capaz de conviver.

Um levantamento da Gallup publicado em outubro de 2026 mostra que 81% dos adultos, na mediana dos 97 países pesquisados, usaram redes sociais nos sete dias anteriores. Entre pessoas de 15 a 29 anos, o índice chegou a 95%. Quase metade dos jovens dessa faixa etária se enquadra no grupo de uso intenso, com duas horas diárias ou mais. 

A pesquisa não afirma que as redes, sozinhas, tenham causado o mal-estar mundial. Seria intelectualmente desonesto dizer isso. Mas aponta uma associação incômoda. Em comparação com usuários moderados, aqueles que passam duas horas ou mais por dia nas plataformas relatam mais raiva, solidão, tristeza, estresse e preocupação. Nos países de alta renda, o uso intenso também está associado a avaliações menos positivas da própria vida.

É informação suficiente para abandonar a ingenuidade. Não estamos falando apenas de vídeos engraçados, fotografias de férias ou mensagens entre amigos. Estamos falando de plataformas que disputam cada segundo de atenção, alimentam a necessidade de aprovação e colocam pessoas comuns diante de uma vitrine interminável de vidas aparentemente perfeitas.

O usuário compara sua realidade com a edição publicitária da realidade alheia e, muitas vezes, conclui que está perdendo a corrida.

Enquanto isso, o debate público vira ringue. A mentira circula, a provocação rende audiência e o insulto ganha mais visibilidade do que a ponderação. A política se contamina com a lógica do espetáculo, a intimidade vira exposição e a diferença de opinião passa a ser tratada como declaração de guerra. Não é o único fator por trás da polarização ou da crise emocional, mas é um ambiente que pode amplificar conflitos e recompensar os comportamentos mais agressivos.

O mais conveniente para as plataformas é transferir toda a responsabilidade ao usuário. Se alguém passa horas conectado, a culpa seria exclusivamente de sua falta de disciplina. É uma explicação confortável para quem lucra com o tempo de permanência e conhece os mecanismos que mantêm a audiência presa. 

A Gallup também mostra que o uso moderado está associado a resultados mais favoráveis do que o uso intenso em diversas medidas de bem-estar. 

A saída, portanto, não é demonizar toda tecnologia nem fingir que desconectar resolve todos os problemas. É exigir transparência, responsabilidade e proteção efetiva, sobretudo para os mais jovens.

Conexão não é sinônimo de convivência. Seguidores não são amigos. Curtidas não são afeto. E uma sociedade que entrega sua atenção sem questionar pode acabar perdendo algo mais valioso do que tempo, a capacidade de pensar, escutar e viver fora da tela.

O autor é Jornalista/radialista/filósofo