10 de outubro de 2026
OPINIÃO

O recado das urnas veio sem legenda e sem tradução

Por Sidnei Martins De Aguiar |
| Tempo de leitura: 3 min

As eleições gerais de 2026 deixaram uma mensagem difícil de ignorar: parte do eleitorado parece ter perdido a paciência com o velho roteiro da política tradicional. Novos nomes ganharam espaço, inclusive entre aqueles que não foram eleitos, enquanto muitos dos que sempre circularam pelo poder descobriram que mandato não vem com escritura definitiva. E, por aqui, o cenário também merece atenção. Bauru, a "cidade sem limites", continua sem representantes locais nos Legislativos estadual e federal. Limites geográficos talvez não existam, mas limite político parece existir — e ele apareceu nas urnas.

Em Lençóis Paulista, a oposição também recebeu sua dose de realidade. Não conseguiu segurar a votação expressiva que teve o candidato a deputado estadual pelo município com cerca de 49% dos votos locais. O resultado serve como um lembrete de que oposição não se sustenta apenas com discurso, memória de eleições passadas ou com os mesmos nomes de sempre. Sem renovação de base, a política envelhece — e o eleitor percebe.

A política partidária brasileira atravessa uma transformação geracional. Aos poucos, as novas gerações estão chegando ao processo decisório e se consolidando como uma parcela do eleitorado mais exigente, crítica e atenta às demandas de transformação social, econômica, ambiental e estrutural. Mas nem todos estão preparados para compreender essa mudança.

Parte do eleitorado ainda permanece presa aos velhos modelos políticos, enquanto algumas lideranças continuam insistindo nas mesmas estratégias, nos mesmos grupos e, principalmente, nos mesmos nomes. A realidade é que ciclos políticos se encerram. E quando uma liderança não consegue perceber que o seu ciclo terminou, corre o risco de transformar uma trajetória que poderia deixar legado em uma sucessão de derrotas eleitorais.

Os reflexos dessa resistência à renovação podem ser observados no interior paulista. Regiões como Botucatu, Marília, Ourinhos e Ribeirão Preto conseguiram articular suas forças políticas em torno de candidaturas com identidade regional, elegendo representantes capazes de levar demandas locais e regionais aos centros de decisão.

Na contramão dessa articulação, a região de Bauru enfrenta um cenário particularmente desafiador. A pulverização dos votos, a ausência de consenso político regional e a dificuldade de construção de uma estratégia comum acabaram reduzindo a capacidade de representação da própria região. O resultado era previsível: quando uma região não consegue construir seus próprios espaços de representação, abre espaço para que candidatos e agendas de outras localidades ocupem esse território político.

A principal lição dessas eleições talvez seja simples: os ciclos políticos precisam ser respeitados. Uma hora, o chicote muda de mãos. Quem durante muito tempo esteve na posição de "bater" pode descobrir que também chegou a sua vez de "apanhar".  A política regional não pode continuar reduzida a uma disputa de egos, grupos e projetos pessoais. Uma região forte precisa de representação forte. E representação forte exige planejamento, articulação e, sobretudo, capacidade de construir consensos em torno de nomes e projetos que tenham identidade regional.

As eleições de 2026 deixaram, portanto, uma mensagem que vai muito além do resultado das urnas, quem não compreender a necessidade de renovação corre o risco de transformar liderança em passado e tradição em derrota.  Porque, na política, como na vida, os ciclos terminam. E quando o ciclo termina, não adianta reclamar do eleitor.


O autor é professor, especialista em direito ambiental, recursos hídricos e gestão de riscos, autor de literatura técnica em recursos hídricos, gestão de riscos e desenvolvimento econômico.