10 de outubro de 2026
COLUNISTAS

Justiça assimétrica

Por Carlos Brunelli | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Quem leu nos jornais e sites de notícias no Brasil, ficou estarrecido; quem vivenciou o drama em Madri, Espanha - foi lá que o fato aconteceu - indignou-se. Uma idosa de 87 anos foi despejada do apartamento onde residia, não por inadimplência, mas por avareza. "Que a vida de vocês seja isenta de avareza. Contentem-se com as coisas que vocês têm" (Hebreus 13:5)

A octogenária morava no imóvel há 70 anos, mediante um contrato de aluguel incialmente celebrado por seu pai, passado à mãe quando ele faleceu e por ela herdado quando a mãe também morreu. Durante essas sete décadas, o aluguel foi pago criteriosamente em dia, sem atrasos, e atualmente estava em euros o equivalente a três mil reais. A imobiliária propôs um reajuste para 15,6 mil reais, posteriormente reduzido para 9,7 mil reais, ambas alternativas incabíveis no orçamento daquela senhora, cuja única fonte de renda é a aposentadoria de 7,9 mil reais. Ante essa dificuldade, uma escritora anônima se comprometeu a bancar a diferença entre o atual valor da locação e o montante pretendido pela administradora, que recusou a proposta, numa clara demonstração de que o interesse não estava no valor em si, mas na especulação imobiliária. "Melhor é o pouco, havendo o temor do SENHOR, do que um grande tesouro onde há inquietação" (Provérbios 15:16)

Acontece que o imóvel está situado no Retiro, bairro de crescente relevância na cidade madrilenha, devido a uma combinação de localização nobre e gentrificação acelerada. Gentrificação é o fenômeno socioeconômico de transformação urbana em que uma área popular ou degradada passa por valorização e atrai investimentos. Apesar do protesto de dezenas de pessoas que chegaram a acampar defronte do edifício, o despejo foi concluído, com a aposentada sendo conduzida de maca a uma ambulância, já que tem mobilidade reduzida, e do hospital à casa de familiares, em cadeira de rodas. Tudo assistido e avalizado pela Justiça espanhola. "Não sejam parciais no julgamento. Ouçam tanto o pequeno quanto o grande" (Deuteronômio 1:17)

Interessante que ao redor do mundo - Espanha incluída - a iconografia da Justiça é representada por uma figura de mulher em movimento (a ação do judiciário); com venda sobre os olhos; em uma das mãos uma espada apontada para o alto; e na outra mão uma balança de dois pratos em perfeito equilíbrio. A simbologia é clara: a venda indica a imparcialidade, a neutralidade sem olhar a quem; a espada apontada para o alto, uma conexão da justiça humana à divina; e a balança o equilíbrio, o tratamento isonômico entre as partes na demanda. Aparentemente, no caso não houve apego à tradição jurídica. "Nomeiem juízes e oficiais em todas as cidades, para que julguem o povo com justiça. Não devem torcer a justiça, não devem tratar as pessoas com imparcialidade, nem aceitar suborno" (cf. Deuteronômio 16:18,19).

A Lei de Moisés proibia que autoridades usassem de dois pesos e duas medidas em seus julgamentos, pois a corrupção cega até os mais sábios e oprime os mais fracos. Quando juízes e líderes abandonam a verdade, quando se apartam dos ensinamentos de Deus, o direito é afastado e a justiça fica distante da sociedade. "Temos sido infiéis e nos afastamos do nosso Deus. Por isso, o direito se retirou e a justiça se pôs de lado, porque a verdade anda tropeçando pelas praças". (Isaías 59:13:14)

Curiosamente, a esplêndida escultura da deusa Têmis, representativa da Justiça e instalada na Praça dos Três Poderes, em Brasília, não está ativa, em movimento, mas contemplativa e sentada; sua espada não está brandida e apontada para o alto, mas repousa plácida no colo da estátua, contida por ambas as mãos, vez que não há no monumento a balança - símbolo de equidade, do nivelamento no trato jurídico, da ponderação dos interesses - a ser sustentada. Alguns já arriscaram decifrar o ineditismo desses elementos, mas somente o autor - o mineiro artista plástico já falecido Alfredo Ceschiatti - poderia revelar sem erro a motivação de sua obra.