03 de outubro de 2026
OPINIÃO

A máquina dá respostas; o professor ensina a questionar

Por Wellington Anselmo Martins | Doutorando em Educação para a Ciência (Unesp/Bauru)
| Tempo de leitura: 2 min

À primeira vista, tecnologia e formação docente ocupam páginas diferentes; nesta semana, porém, dialogaram de modo interessante.

Na Europa, novos relatórios sobre inteligência artificial na educação mostraram que quatro em cada dez jovens de 16 a 24 anos já usavam IA generativa para fins educacionais em 2025, enquanto menos de um terço dos professores pesquisados havia recebido formação profissional relacionada à IA.

No Brasil, uma nova lei transformou o Pibid (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) em política de Estado, fortalecendo justamente a inserção dos futuros professores no cotidiano das escolas públicas.

De um lado, máquinas aprendendo a responder cada vez melhor; de outro, seres humanos aprendendo a ensinar.

Aí está uma das grandes questões educacionais de nosso tempo. Se ensinar significasse apenas transmitir informações, explicar conteúdos e produzir respostas corretas, a inteligência artificial seria uma concorrente formidável.

Mas educação é também diálogo, interpretação, reconhecimento do outro, formação do juízo e responsabilidade pelo que se diz e se faz inclusive com as novas tecnologias.

Por isso, é necessário perceber o perigo de reduzirmos a razão à eficiência: uma escola pode tornar-se tecnologicamente sofisticada e, ao mesmo tempo, educativamente pobre, se formar apenas usuários eficientes de ferramentas em vez de formar sujeitos capazes de argumentar, questionar e compreender uns aos outros.

Por isso, as duas notícias não falam apenas de tecnologia ou de formação docente. Falam de autonomia. Hoje, o problema já não é saber se a inteligência artificial conseguirá produzir uma boa resposta — muitas vezes ela conseguirá —, mas se estudantes e professores saberão examiná-la, contestá-la e responder moralmente por aquilo que fazem com ela. Quanto mais a máquina aprende a responder, maior se torna a responsabilidade humana ao usar tal resposta.

E justamente por isso, no século da IA, precisaremos menos de professores que apenas transmitam respostas prontas e ainda mais de professores que ensinem seres humanos a pensar por si mesmos de um novo modo ciborgue: inteligência artificial mais inteligência humana.