03 de outubro de 2026
OPINIÃO

Vote para salvar a democracia

Por Zarcillo Barbosa |
| Tempo de leitura: 3 min

O ativismo judicial em torno das eleições gerou tal insegurança jurídica que a TV Globo se viu obrigada a cancelar o debate eleitoral. O Supremo e o próprio TSE prejudicam o eleitorado que fica sem um debate direto entre os candidatos à Presidência, além do clima tóxico criado por decisões indevidas e de última hora.

O ministro Gilmar Mendes, contrariando decisão anterior da própria Corte, obrigou a Globo a aceitar o candidato Renan Santos entre os debatedores. A regra era a de não convidar candidatos de partidos com menos de cinco representantes no Congresso. O partido Missão, de Renan, tem somente um deputado federal.

Flávio Bolsonaro abriu mão da sua participação no programa porque se tornaria alvo de livre atiradores. Lula, diante de uma eleição de prognósticos tão apertados, já havia se decidido a não entrar nesse perde-perde. A bagunça começou com a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, ao proibir a Globo de focalizar a tribuna vazia que seria de Lula e permitir perguntas feitas pelos debatedores ao candidato ausente. A decisão tem a ver com censura prévia. A Constituição que os magistrados juram defender, "veda qualquer espécie de censura prévia". "É proibido proibir". A censura representa a própria antítese dos grandes princípios que dão sustentação ao regime democrático.Estamos diante da eleição mais apertada da nossa história. O país está dividido e em jogo a democracia. O eleitorado, embora polarizado, em nada colabora para a toxidade do ambiente, provocada por membros do judiciário que deveriam colaborar para o livre debate.

Tivemos de tudo durante a campanha eleitoral, exacerbada depois da falsa notícia implicando Flávio Bolsonaro num projeto propondo a cassação do título à Nossa Senhora da Aparecida como "Padroeira do Brasil". Mesmo inocente, o senador-candidato errou ao criticar a Conferência dos Bispos do Brasil que nada tinha a ver. O ministro André Mendonça proibiu a divulgação da narrativa nas redes sociais; o ministro Flávio Dino suspendeu a censura de Mendonça e, em seguida, Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino. Entramos no resvaladio terreno da galhofa, mesmo se consideramos que o STF é o colegiado responsável pela "defecatio máxima", ou pelo último erro.

O post do humorista Antônio Tabet, que gerou toda esse agito, dizia que "a família miliciana odeia tanto mulher preta que resolveu atacar Nossa Senhora da Aparecida". A ilação tem suas evidências, mas o nome do senador Flávio não foi citado. Os evangélicos não cultuam santos desde o século 16. A Reforma Protestante pregava a existência de um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus. André Mendonça depois reformou o seu voto no TSE, ao retirar a ordem de remoção da postagem do influenciador.

Lembra um pouco a história da "mamadeira de piroca" de há 8 anos, quando Fernando Haddad era candidato à presidência da República. Publicaram na rede um vídeo falso em que aparece um objeto artesanal importado, no formato de pênis. A deepfake foi atribuída à turma da campanha de Jair Bolsonaro, principal oponente, e dizia que graças a Haddad, prefeito de São Paulo, as crianças sofriam sexualização infantil em creches públicas. Neste primeiro turno, a campanha de Bolsonaro aproveita-se de um desastroso improviso de Lula, quando, procurando incentivar os exames preventivos do câncer de próstata, disse que as mulheres estão acostumadas ao toque desde crianças, e os homens têm medo. Lula quis se referir à rotina dos exames ginecológicos. Exploraram a sexualização infantil e o estupro de menores.

Diante da tendência de votos onde Lula e Flávio estão empatados no primeiro, no segundo turno e até nas rejeições, ambos os candidatos cuidam de conquistar os votos dos indecisos e temem a abstenção. Diante do caos, muita gente acha que não vale a pena sair de casa.

O autor é jornalista.