Estudantes do curso de Medicina da Faculdade de Medicina de Bauru da Universidade de São Paulo (FMBRU-USP) decidiram entrar em greve nesta quarta-feira (23), dois dias depois de uma mobilização que levou alunos às ruas do câmpus para cobrar melhorias na formação médica e maior participação nas decisões da graduação. A paralisação foi aprovada por 85,4% dos 226 estudantes que participaram da Assembleia Geral Extraordinária e, inicialmente, envolve os alunos do 1º ao 4º ano.
A decisão ocorre após uma tentativa de reunião entre representantes dos estudantes e integrantes da direção da FMBRU, realizada depois da manifestação de segunda-feira (21). Segundo a Comissão de Organização da Greve, o encontro acabou frustrando a expectativa dos alunos de estabelecer uma mesa efetiva de negociação. A mobilização iniciada na segunda-feira havia sido organizada pelos estudantes de todos os anos da graduação.
Na ocasião, eles reivindicaram mais diálogo, transparência e participação estudantil, além de mudanças nas condições de ensino, internato, estágios, preceptoria e infraestrutura. A direção da faculdade afirmou, em nota divulgada após o ato, que as atividades acadêmicas continuavam normalmente e que a manifestação era uma iniciativa organizada pelos alunos, não representando uma paralisação da faculdade. O Hospital das Clínicas de Bauru informou que o atendimento aos pacientes não havia sido afetado (Leia a nota completa ao final).
Agora, o movimento estudantil afirma que a falta de avanços nas conversas levou à decisão pela greve. De acordo com os estudantes, após a passeata de segunda-feira, a direção da FMBRU convidou representantes discentes para uma reunião na Superintendência do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho). Os alunos solicitaram que o encontro fosse realizado na Tutoria, espaço que, segundo eles, é historicamente utilizado pela graduação de Medicina no câmpus.
A solicitação, segundo o movimento, não teria recebido resposta. Os representantes compareceram ao local inicialmente solicitado e, diante da ausência da direção, decidiram posteriormente se deslocar até a Superintendência do HRAC. Os estudantes relatam que, ao chegar à sala de reuniões, constataram a ausência do diretor pro tempore da FMBRU, José Sebastião dos Santos, e da presidente da Comissão de Graduação, Alessandra Mazzo, considerados pelos alunos figuras centrais para a discussão das reivindicações.
Segundo os estudantes, a ausência dos dirigentes foi interpretada como falta de disposição para negociar. O movimento afirma ainda que José Sebastião estava em atividade na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, sua unidade de origem, enquanto não teria sido apresentada aos alunos uma justificativa para a ausência de Alessandra Mazzo. Os estudantes relatam que, depois do encerramento da reunião, Alessandra teria passado pelo grupo de alunos no câmpus. Na avaliação do movimento, o episódio agravou a sensação de frustração e de falta de interlocução com a direção.
A reunião acabou sendo conduzida por docentes e servidores que, segundo os estudantes, demonstraram disposição para conversar, mas não apresentaram encaminhamentos considerados suficientes para solucionar as reivindicações.
Entre os principais pontos levantados pelo movimento está a necessidade de ampliar a participação dos estudantes nas decisões relacionadas à formação médica. A reivindicação inclui a criação de um canal permanente e direto de comunicação com a direção para tratar de demandas imediatas, com respostas e acompanhamento dos encaminhamentos. Os estudantes também querem maior transparência nas decisões da graduação, liberdade de expressão, direito ao contraditório e participação efetiva nos espaços institucionais.
A reivindicação ocorre em um momento em que a própria estrutura regimental da FMBRU prevê representação discente na Comissão de Graduação. Uma resolução da USP publicada em agosto deste ano estabeleceu que a Comissão deve contar com representação dos estudantes equivalente a 20% dos membros docentes, eleita pelos próprios alunos. A página oficial da FMBRU também registra representantes discentes na Congregação da unidade.
Os estudantes, porém, afirmam que a representação formal nos colegiados não é suficiente e defendem mecanismos de interlocução mais ágeis para questões do cotidiano da graduação.
Outro eixo da greve envolve a formação prática dos futuros médicos. Os estudantes reivindicam a reorganização da preceptoria — acompanhamento realizado por médicos e outros profissionais durante as atividades práticas — e maior padronização das competências trabalhadas nos diferentes campos de estágio. O movimento também cobra a ampliação dos locais de estágio em Bauru e maior integração entre a faculdade e a rede pública de saúde do município.
Para os estudantes, a inserção da FMBRU na rede de saúde deve permitir que a universidade cumpra simultaneamente suas funções de formação e contribuição para a qualificação dos serviços públicos. A questão da preceptoria e da integração da formação médica com a rede municipal de saúde já foi discutida em audiência pública realizada na Câmara de Bauru em maio. Na ocasião, participaram das discussões representantes da FMBRU, do Hospital das Clínicas, da Secretaria Municipal de Saúde, vereadores, estudantes e residentes.
Os alunos também reivindicam a inclusão de capacitações específicas, como o curso ACLS (Suporte Avançado de Vida em Cardiologia), para estudantes do 6º ano.
A pauta inclui ainda a ampliação do funcionamento da Tutoria como espaço de estudo e convivência dos alunos. Também estão entre as reivindicações a garantia de transporte adequado e apoio institucional para alimentação quando os estudantes precisarem realizar atividades e estágios fora de Bauru.
A comissão afirma que essas questões fazem parte de uma pauta relacionada às condições concretas da formação médica e não representam críticas individuais a professores, servidores ou preceptores.
Um dos pontos de maior alcance institucional da pauta é o pedido de antecipação do processo eleitoral para a Diretoria da FMBRU. Os estudantes defendem a escolha de uma nova gestão por docentes da própria Faculdade de Medicina de Bauru, argumentando que a atual conjuntura exige o fortalecimento dos mecanismos internos de representação e diálogo.
A FMBRU foi criada oficialmente pela USP em março de 2024 e, conforme a resolução que instituiu a unidade, passou a ser dirigida por um diretor pro tempore indicado pelo reitor até a designação de um diretor.
A página oficial da faculdade informa que a unidade permanece em fase de consolidação de sua estrutura e que José Sebastião dos Santos foi nomeado diretor pro tempore pela Reitoria.
Apesar da decisão de greve, os estudantes afirmam que o movimento foi organizado para preservar a assistência à população. Na paralisação de segunda-feira, os alunos haviam informado previamente a organização do ato e sustentaram que as atividades relacionadas ao atendimento de pacientes seriam preservadas. O Hospital das Clínicas de Bauru confirmou que a mobilização não havia afetado os atendimentos.
A comissão responsável pelo movimento afirma que o objetivo da greve é reivindicar mudanças na formação médica sem comprometer a assistência prestada à população e a relação da universidade com o Sistema Único de Saúde (SUS).
Os estudantes também reivindicam que não haja retaliações acadêmicas, administrativas ou disciplinares contra quem participou da manifestação de 21 de setembro ou aderir à greve. Pedem ainda o abono das faltas decorrentes da paralisação, sem prejuízo acadêmico.
O movimento afirma não ter caráter político-partidário e sustenta que a greve está concentrada em questões internas da graduação e na relação entre estudantes e instituição.
Em nota recente sobre a paralisação realizada na última segunda-feira (21), a diretoria da FMBRU-USP ressaltou que tratava-se de uma paralisação dos estudantes e não da Faculdade de Medicina de Bauru da Universidade de São Paulo. "A FMBRU-USP continua se desenvolvendo, assim como o Hospital das Clínicas que veio com ela, ambos em ritmo acelerado. O propósito é fortalecer cada vez mais o ecossistema já estabelecido para ajudar a formar pessoas com vocação para a atenção à saúde, para a pesquisa e a inovação das práticas, sobretudo, do Sistema Único de Saúde (SUS)", afirma.
"Já estamos experimentando as dores do crescimento: em 30 meses, dobramos o número de professores; o HC Bauru triplicou o número de leitos e em breve fará o mesmo com as salas de operação. Adicionalmente, criamos uma segunda escola - a residência médica, que em breve estará formando 70 especialistas por ano. O objetivo é que todo egresso da FMBRU-USP (hoje são 60) saia como médico e, também, especialista. Se quiser, o egresso ainda poderá ser titulado como mestre e como doutor. A organização está dada e os desafios para aperfeiçoá-la e aproveitá-la, com muita dedicação, também".
O JCNET está aberto a um novo posicionamento, agora sobre a greve iniciada nesta quarta.