19 de setembro de 2026
OPINIÃO

Apagar a Hybris

Por Claudia Zogheib | A autora é psicanalista, especialista pela USP - Departamento de Psicologia, Psicóloga Clínica formada pela USC, responsável pelas páginas @zogheibclaudia, @cinemaeartenodiva, @livros.no.diva, @auguri
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Quando vejo alguém se portando de maneira grosseira e arrogante, me pego pensando no que sustenta sua atitude - um trauma, uma insegurança, algo que o autoriza capaz de se sentir no topo, acima de qualquer suspeita. Quão contraditório é seu discurso, elaborado sem a percepção da própria areia movediça que se encontra, e se percebesse sua fração equivocada, estabeleceria um elo com a lógica de sua atitude - e sentiria vergonha.

Enquanto atendo meus pacientes vivencio a construção de uma identidade que se percebe, e diante das fragilidades, sintomas, dores, alegrias e comemorações de conquistas que lhes foram caras, me dou conta de que a nossa sensibilidade extravasa a partir do momento que ressaltamos aquilo que ainda se encontra desconhecido em nós, atribuindo um valor simbólico que não é resultado somente do que vivemos, mas do que fazemos com nossas vivências. E diante das injustiças, agressões implícitas, inveja, julgamentos, egoísmos, transformamos aspectos da natureza humana – sofrimentos, vicissitudes.

No exercício da entrega e da fragilidade, coisas extraordinárias, vezes difíceis, acontecem numa sessão de análise.
Nossas ações estão sempre interligadas – no acolhimento, na simplicidade, humildade, e podem se transformar em arrogância, soberba, desmoralização, cisões, quando somos confrontados pelo outro que nos assombra. E se não revisitamos a origem e a formação dos nossos sintomas, continuamos defendidos e arrogantes.

Em síntese, a mesma mão que estende é capaz de virar as costas, e isto depende dos interesses em jogo, ou seja, sem confrontar as próprias atitudes frente a um idealismo imaginário que foi constituído pelas próprias ilusões, a hybris dá o contorno de um eu que não se acessa e que se defende e incorpora um personagem fictício e doentio.

Hybris vem do grego e se refere ao conceito de orgulho excessivo, arrogância ou insolência, frequentemente associado à perda de contato com a realidade, que em Freud, não é visto como um tema isolado, mas uma ilusão defensiva ligada ao narcisismo e aos grandes golpes que o homem sofre em sua vaidade.

Não se constrói nada duradouro pensando em si e nos próprios interesses, mas fica fácil entender a dinâmica destrutiva quando a engrenagem padece de uma cisão coletiva.

Enxergar o mundo a partir da perspectiva de uma entrega humilde que pensa no coletivo, dificulta a prevalência da corrupção, e consequentemente, revela no discurso a coerência de sua própria intenção.
A arrogância é uma perigosa arma que serve para confundir quem ainda não entendeu como o mecanismo funciona, mas infelizmente, ainda continua afetando muitos.

Música “The Forest”, José G.