18 de setembro de 2026
OPINIÃO

Aqueles que se foram


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 - “Mais ou menos dez por cento de vocês vão enlouquecer”  – disse o veterano em um tom jocoso carregado de malícia e com um bom tanto de crueldade. Eu me lembro até hoje, mais de vinte e cinco anos depois. Eu havia sido aprovado no vestibular para uma das principais faculdades de medicina do país e, naquela época, o “trote” e a recepção dos calouros seriam considerados um pouco rude e tensos pelos parâmetros de hoje

“Ah, claro, vocês têm que saber ...” – disse o veterano responsável pela nossa recepção, um pouco ébrio, falando alto – “... um de vocês vai morrer.”

Achei uma conversa tétrica demais para a ocasião, mas, algum tempo depois, fiquei sabendo de uma triste realidade: já fazia alguns anos que as taxas de suicídio entre os estudantes de medicina estavam aumentando. Comentários “de corredores” falavam que mais ou menos um colega de cada “turma” que ingressava no curso acabava precocemente com a própria vida no decorrer dos seis anos de duração.

De fato, o ambiente realmente não ajudava; éramos jovens, muitos nem “maiores de idade”, todos submetidos a um ritmo frenético de aulas e provas em um volume que não estávamos acostumados. O curso básico (com anatomia, fisiologia e outros) diferia muito de tudo que já havíamos visto e a partir dele tínhamos que construir uma base sólida de conhecimento para matérias mais complexas em meses de estudo e não em anos, como fazíamos na escola do segundo grau.

Já no terceiro ano, o “bicho-papão” do estudante era a matéria de patologia e a farmacologia, onde praticamente se exigia decorar conhecimentos que cabiam em livros de setecentas páginas, sendo que muitos de nós já estávamos inseridos em ambiente hospitalar, no ritmo de “estudo de dia, plantão à noite”. Os que não eram da cidade, ficavam afastados da família por semanas.

A vida do Marcelo (mudei o nome para preservar sua memória), meu colega do terceiro ano, era neste esquema. Ainda hoje me lembro de estarmos no pátio do hospital, perto da sala de aula, esperando a professora de farmacologia chegar. Nós conversamos sobre como estava difícil a matéria e ele comentava que tinha adiantado alguns plantões da liga de cirurgia que participava, para ter o final de semana livre e assistir ao show de uma banda australiana que gostávamos muito, ele e eu.

Não éramos muito chegados, tanto que eu achava que os olhos fundos atrás do óculos de aro redondo eram produto somente de cansaço, mas agora tenho certeza de que havia algo mais. Esta conversa foi a última que eu tive com ele. Semanas depois outros colegas me disseram que o corpo dele fora encontrado no apartamento em que vivia sozinho.

Eu me pergunto se eu teria a capacidade de contribuir de alguma forma para essa história não terminar deste jeito... talvez uma conversa mais profunda, talvez ouvir um pedido de ajuda que na época eu não entendi... parece que a resposta para isso eu não terei.

Lembro-me desta conversa, toda vez que volta a campanha do setembro amarelo para prevenção do suicídio. Acho que hoje o que eu posso fazer de melhor é aconselhar a vocês, leitores(as) que ouçam a própria intuição quando virem uma cara cansada e desgastada que pode estar escondendo uma grande dor com um sorriso amarelo, e perguntarem para a pessoa se ela realmente está precisando de alguma ajuda.

 

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica.