12 de setembro de 2026
OPINIÃO

Bauru e seu 'presente de Grego'

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista
| Tempo de leitura: 3 min

Na mitologia grega o Cavalo de Troia foi usado como uma estratégia enganosa para entrar na cidade fortificada. Na Odisseia de Homero e, com mais detalhes, na Eneida de Virgílio o imenso cavalo de madeira largado na praia quase deu em nada. Os artesãos fizeram o presente maior do que a altura dos portões da cidadela. Os troianos, vaidosos por terem ganho o troféu, símbolo da "vitória" depois de 10 anos em guerra, derrubaram parte da muralha, o que também facilitou a invasão do inimigo.

"Cavalo de Troia" também é o nome de um programa malicioso que se disfarça de aplicativo legítimo para enganar o usuário de computador. Na Prefeitura de Bauru também introduziram um corpo estranho para viciar aquela que seria "a maior licitação pública da história".

O presente dado a Bauru - dizem que foi do Kassab - é uma senhora já rodada em altas funções públicas fora daqui. O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) foi criativo. Temos mais é que reconhecer os méritos dos vinte mandados de busca e apreensão, os sequestros de bens e as detenções efetuadas. Estão envolvidos altos funcionários do município, entre eles a secretária do Meio Ambiente Cilene Chabut Bordezan, e o secretário dos Negócios Jurídicos Vitor João Freitas Costa, ambos com prisão preventiva decretada por indícios de autoria.

A secretária veio de Sorocaba, onde participou ativamente da gestão do prefeito Rodrigo Manga, missionário da Igreja Mundial do Poder de Deus. Durante o seu mandato, dois de seus secretários foram presos e condenados, um a 20 anos e quatro meses de prisão e outro a 9 anos. Ele mesmo, o Manga, ainda anda enrolado em processos por corrupção e lavagem de dinheiro desviado da Saúde. Na casa do secretário Jurídico, que veio de Santos sob encomenda, foram encontrados R$240 mil em dinheiro vivo. Provavelmente não estavam reservados para a feira dominical.

A prefeita de Bauru não é investigada e nem há indícios de sua participação no direcionamento da licitação. Deu autonomia aos seus subalternos para promoverem o certame de concessão de 30 anos de coleta de lixo no município, a um preço total de R$ 5 bilhões e 200 milhões. Foi traída. Está "colaborando integralmente com as investigações" e "duela a quien lo duela", espera por Jus-ti-ça. Suéllen Rosin, nossa prefeita, agiu rápido: exonerou os acusados. Lamentou em entrevista que o RH da Prefeitura tenha hesitado ao contratar esses feios, sujos e malvados.

Nosso "presente" Cilene Bordezan mantinha contatos diretos com um diretor da Estre, empresa destinada a vencer a concorrência. Para garantir uma proposta vencedora, Bordezan combinava com "Hamiltinho", às vezes também chamado de "meu amorzinho", cláusulas excessivamente restritivas de competitividade. Nas conversas pelo aplicativo, reclamava da "filha da puta" da vereadora Estela Almagro que, da tribuna da Câmara já pressentia a negociata. As propostas deveriam ter sido abertas no dia 1 de setembro se o Tribunal de Contas do Estado não impugnasse o Edital por causa das tais cláusulas, incompatíveis com uma competição séria.

Na Câmara de Bauru, a situação promete abrir uma Comissão Especial de Inquérito, aquela que cheira a orégano quando chega ao fim. Investiga, mas não julga. A oposição, prefere uma Comissão Processante, aquela que investiga, julga agentes públicos e pode até terminar em cassação.

O Gaeco é que vai se fazer valer ao terminar de apurar as acusações por fraude ao caráter competitivo da licitação, corrupção ativa e passiva, advocacia administrativa, falsidade ideológica e associação para o crime. Alertava o saudoso Tancredo Neves que "esperteza, quando é demais, engole o dono". Odisseu, depois de destruir e saquear a cidade de Troia, sentiu a vingança da feiticeira Circe que transformou seus homens em porcos.

Em Brasília a coisa está quente. Em Bauru, temos um vulcãozinho para chamar de nosso, com todo respeito.