O mercado de trabalho deve chegar a 2030 bastante diferente do que conhecemos hoje. Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades atuais dos profissionais devem mudar ou perder relevância até o fim da década. O LinkedIn projeta uma transformação ainda maior e estima que 70% das habilidades usadas na maioria das funções serão impactadas nesse período. Esses números costumam aparecer em discussões sobre qualificação profissional, mas também levantam uma questão importante para quem ocupa posições de liderança: até que ponto os próprios líderes estão preparados para rever a forma como pensam, decidem e conduzem suas equipes?
Durante muito tempo, experiência significou acumular respostas. Um profissional crescia na carreira, conhecia melhor o mercado, assumia novas responsabilidades e usava esse repertório para tomar decisões. Esse conhecimento continua tendo valor, mas o ritmo das transformações exige uma disposição maior para reconhecer quando uma solução que funcionou no passado já não responde bem ao cenário atual. Liderar nos próximos anos vai depender cada vez mais dessa capacidade de ajustar a rota sem perder a clareza sobre onde se quer chegar.
A inteligência artificial tornou esse movimento mais evidente. Em pouco tempo, ferramentas que pareciam distantes passaram a fazer parte da rotina das empresas, alterando processos, automatizando tarefas e mudando a maneira como determinadas atividades são executadas. O Fórum Econômico Mundial aponta IA e big data entre as competências com maior crescimento de demanda até 2030, ao mesmo tempo em que pensamento analítico, resiliência, flexibilidade, liderança e colaboração continuam entre as habilidades mais valorizadas.
Essa combinação mostra que o futuro da liderança não será definido apenas pelo domínio de tecnologia. Um líder precisa entender o suficiente para avaliar impactos, identificar oportunidades, fazer boas perguntas e perceber onde uma nova solução realmente pode melhorar o negócio. Ao mesmo tempo, continua responsável por conduzir pessoas em ambientes de mudança, o que exige comunicação, escuta e capacidade de dar direção em momentos de incerteza.
Toda transformação mexe com a rotina das equipes. Processos são revistos, algumas tarefas deixam de existir, outras surgem e conhecimentos que funcionavam bem precisam ser atualizados. Nessas situações, a liderança precisa explicar com clareza por que determinada mudança está acontecendo, qual resultado se espera dela e como as pessoas serão preparadas. Quando esse contexto não existe, a mudança tende a ser percebida apenas como imposição ou mais uma demanda a ser absorvida.
Também há um ponto que considero importante pela experiência de liderar empresas de tecnologia: quem está mais próximo do cliente, do produto ou da operação muitas vezes percebe sinais antes da alta liderança. Um processo que deixou de funcionar pode aparecer primeiro em uma conversa com cliente, em uma dificuldade recorrente da equipe ou em uma mudança de comportamento do mercado. Empresas que conseguem fazer essas informações circularem têm mais condições de reagir com rapidez e tomar decisões melhores.
Por isso, a capacidade de adaptação não pode ficar concentrada no CEO ou em poucas pessoas. Uma empresa preparada para mudanças precisa formar profissionais capazes de assumir responsabilidades, propor caminhos e participar das decisões. Isso exige autonomia, mas também direção. As pessoas precisam entender os objetivos da organização, saber quais resultados são esperados e ter clareza sobre o espaço que possuem para agir.
O aprendizado contínuo entra nessa discussão porque o mercado já não permite separar com tanta facilidade a fase de formação da fase de trabalho. O Fórum Econômico Mundial estima que 59 em cada 100 trabalhadores precisarão passar por algum processo de atualização ou requalificação até 2030. Entre os empregadores pesquisados, 77% pretendem investir na capacitação das equipes diante das transformações provocadas pela inteligência artificial.
Esse movimento também vale para executivos. Assumir uma posição de liderança não encerra o desenvolvimento profissional; aumenta a necessidade de buscar novas referências. Conversar com profissionais de outros setores, acompanhar mudanças de comportamento, conhecer novas tecnologias e ouvir pessoas que dominam assuntos diferentes passa a fazer parte da responsabilidade de quem toma decisões.
Adaptar-se, porém, não significa correr atrás de toda novidade. A velocidade das transformações cria uma sensação constante de urgência, especialmente quando uma tecnologia ganha espaço rapidamente. Com inteligência artificial, isso é evidente. Muitas empresas começam a perguntar como podem usar IA antes mesmo de definir qual problema precisam resolver.
Prefiro inverter essa lógica. Onde estamos perdendo tempo? Qual processo está travando o crescimento? O que pode ser feito com mais qualidade? Onde existe desperdício? O cliente perceberá alguma melhora? Quando essas perguntas vêm primeiro, fica mais fácil avaliar se uma nova tecnologia realmente faz sentido e qual impacto ela pode gerar.
Tecnologia precisa chegar acompanhada de resultado. Pode melhorar produtividade, reduzir custos, criar receita, elevar a qualidade de uma experiência ou liberar pessoas para atividades mais relevantes. Quando esse impacto ainda não está claro, talvez o problema não esteja na falta de tecnologia, mas na falta de clareza sobre o que precisa ser resolvido.
Ninguém consegue prever com precisão quais ferramentas, profissões ou modelos de trabalho estarão em destaque em 2030. O que as empresas podem fazer agora é desenvolver capacidade de aprendizado, leitura de cenário e resposta às mudanças. Para os líderes, isso significa continuar ampliando repertório, ouvindo pessoas, revisando decisões e criando equipes que também consigam se adaptar.
Nos próximos anos, experiência continuará contando. A diferença estará na capacidade de usá-la sem ficar preso a ela.