Bauru se despede nesta segunda-feira, 7 de setembro, de um de seus mais conhecidos e queridos nomes na área de promoção social. Morreu neste domingo (6), aos 81 anos, João Carlos Previdello, empresário e presidente do Consórcio Intermunicipal de Promoção Social (CIPS), instituição à qual dedicou décadas de sua vida.
Nascido em Bauru em 19 de agosto de 1945, João Carlos deixa a esposa, Maria Lúcia Ranieri Previdello, as filhas Alessandra e Priscila, familiares, amigos e, sobretudo, uma legião de pessoas que tiveram suas vidas transformadas pelo trabalho desenvolvido pelo CIPS. O velório começou às 7h desta segunda, no Terra Branca, Salão Nobre 1, na rua Gerson França, 5-55, no Centro de Bauru. O sepultamento está marcado para 16h, no Cemitério Jardim do Ypê, em Bauru.
A história de João Carlos Previdello com o CIPS começou muito antes de ele assumir a presidência da entidade. Era, na verdade, uma história de família. O CIPS teve início nos anos 1960 com seu pai, Roberto Previdello, e com o ex-prefeito e ex-deputado engenheiro Alcides Franciscato, com a missão de oferecer aos jovens em situação de vulnerabilidade não apenas assistência, mas, principalmente, oportunidades de desenvolvimento e preparação para a vida profissional.
Em entrevista publicada pelo Jornal da Cidade em 2011, quando tinha 65 anos, ele contou que inicialmente havia se aproximado do trabalho social acompanhando o pai. Aos poucos, porém, o envolvimento se transformou em uma verdadeira vocação. Após a morte de Roberto Previdello, João Carlos assumiu a condução do CIPS e passou a dedicar grande parte de sua vida à instituição.
Naquela entrevista, uma frase resumiu a dimensão que o trabalho havia adquirido para ele: “Essa foi a grande e melhor herança que meu pai me deixou.” E talvez seja justamente essa a melhor maneira de compreender João Carlos Previdello. Ele considerava-se, como afirmou na entrevista, um administrador temporário de uma obra que pertencia à comunidade.
Ao longo de sua trajetória, ajudou a conduzir a entidade por diferentes momentos e gerações, acompanhando as transformações da sociedade e do mercado de trabalho. O CIPS passou a oferecer formação profissional, convivência, educação e preparação para o primeiro emprego, mantendo como princípio a ideia de que promover é mais importante do que simplesmente assistir.
Em 2025, ao falar sobre a história do CIPS, a empresária Sonia Franciscato Braga, filha de Alcides Franciscato, destacou justamente a capacidade da entidade de transformar potencialidades em caminhos. Na ocasião, definiu João Carlos como um presidente “incansável” na continuidade dos ideais de seus fundadores.
Em 2011, Previdello já falava em mais de 42 mil jovens formados e habilitados pela instituição. Em agosto de 2025, quando o CIPS completou 65 anos, uma reportagem do JCNET destacou que a entidade continuava atendendo cerca de 1.200 crianças, adolescentes e jovens e mantendo programas voltados à aprendizagem, ao primeiro emprego e ao fortalecimento de vínculos.
A dimensão desse trabalho pode ser percebida em uma cena especialmente simbólica ocorrida naquele aniversário de 65 anos. A Câmara Municipal de Bauru concedeu ao CIPS uma Moção de Aplauso. Um dos responsáveis pela homenagem, o vereador Junior Rodrigues, emocionou-se ao lembrar que também havia sido aluno da instituição e que ali teve uma oportunidade que ajudou a mudar sua trajetória profissional. Era, de certa maneira, o legado de João Carlos Previdello se materializando diante dele.
Os meninos e meninas que passaram pelo CIPS cresceram. Muitos se tornaram profissionais, empresários, pesquisadores, servidores públicos e cidadãos que carregam consigo um pedaço daquela instituição.
Embora o CIPS tenha se tornado uma das marcas mais fortes de sua trajetória, João Carlos Previdello foi muito além da administração da instituição. Empresário, ligado também aos setores imobiliário e da construção civil, cultivava paixões que revelavam um lado mais íntimo e afetivo. Gostava de orquídeas, dedicava tempo à família, à religião e ao Rotary. Era torcedor do Noroeste e também do Palmeiras.
Na entrevista ao Jornal da Cidade, confessou ser um homem emotivo e definiu a família, as plantas e a religião como seus três grandes pontos de sustentação espiritual. Mas era na relação com as pessoas que talvez estivesse sua maior característica.
João Carlos acreditava que a transformação social dependia de oportunidades. Defendia que empresários abrissem as portas de suas empresas para os jovens e compreendessem que oferecer uma primeira chance poderia mudar não apenas a vida daquele adolescente, mas também beneficiar toda a comunidade.
Era uma visão simples, mas profundamente humana. O legado que permanece A morte de João Carlos Previdello encerra uma trajetória de 81 anos, mas não encerra sua obra.
O CIPS continua existindo. Os projetos continuam. Os jovens continuam chegando. E milhares de histórias iniciadas dentro daquela instituição seguem seus próprios caminhos por Bauru, pelo Brasil e até fora dele.
Em 2025, por exemplo, entre os depoimentos apresentados durante a comemoração dos 65 anos do CIPS estava o de um ex-aluno que se tornou cientista, escritor e pesquisador nos Estados Unidos. É uma demonstração concreta de que o trabalho iniciado há décadas por Alcides Franciscato e Roberto Previdello e conduzido por João Carlos produziu frutos muito além dos muros da entidade.
João Carlos Previdello deixa, portanto, uma herança que não cabe em números, cargos ou títulos. Deixa a lembrança de um homem que poderia ter dedicado sua vida exclusivamente aos negócios, mas escolheu também dedicar seu tempo, sua energia e seu coração a uma causa.
E deixa uma pergunta que talvez seja também a melhor homenagem à sua memória: quantas vidas podem ser transformadas quando alguém simplesmente decide acreditar que um jovem merece uma oportunidade? João Carlos acreditou nisso durante décadas.
E Bauru certamente será capaz de reconhecer, nos rostos e nas histórias de tantos homens e mulheres que passaram pelo CIPS, a dimensão de sua obra. Nossos sentimentos à família.