05 de setembro de 2026
OPINIÃO

No país das bruzundangas

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista
| Tempo de leitura: 3 min

A crise que era apenas sem precedentes transformou-se num terremoto político e institucional a três semanas da eleição presidencial. O incêndio devora o Supremo Tribunal Federal e será difícil de apagar depois das acusações recíprocas entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.

O país todo assiste sem bem entender o que acontece em meio a tantos questionamentos jurídicos. O cidadão menos exposto aos meios de comunicação pelo menos entende que "deu ruim" para a Suprema Corte. A instituição deveria ser considerada "infalível" em matéria de distribuição de Justiça, porque é a última a falar. "Tollitur quaestio" - encerra a discussão.

O ministro André Mendonça, relator, quebrou o sigilo que blindava a publicidade dos diálogos nada republicanos ocorridos entre o colega-ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, ex-Banco Master. As conversas foram levantadas pela Polícia Federal, em celulares apreendidos do dono do Banco. Revelam que as conversas entre Vorcaro e Moraes não passavam de uma advocacia administrativa, proibida para quem tem o dever de zelar pelo direito. Essas relações promíscuas eram conhecidas desde o dia em que a opinião pública soube dos contratos assinados por Vorcaro com o escritório da mulher de Moraes, os mais polpudos da história da advocacia brasileira - R$ 208 milhões.

Essa história lembra, em alguns aspectos, "Os Bruzundangas", livro escrito por Lima Barreto (1881-1922), no qual o autor constrói uma sátira sobre a Justiça (ou a falta de) na Primeira República. A Suprema Corte de Bruzundanga, país fictício, não começava a julgar pelo exame das leis, mas pela identidade das pessoas que poderiam por elas serem atingidas. Toda fez que alguém importante - com poder político ou dinheiro - se envolvia em atividades ilícitas, "pacífica jurisprudência" estabelecia que os Códigos não se aplicavam, "in casu".

Um século depois, o Procurador Geral da República Paulo Gonet pede a anulação de provas que citam o ministro Moraes, sob o argumento de que o ministro Mendonça não teria competência para determinar investigações contra outro ministro. Caberia ao Ministério Público conduzir a persecução penal.

Alexandre de Moraes, por seu turno, requer ao presidente da Corte Edson Fachin para que abra um procedimento contra Mendonça. Este, devolve a estilingada com a bosta seca do pasto pedindo que Fachin afaste o colega que o acusa de má-fé. O presidente do STF até hoje não conseguiu pôr em discussão um Código de Ética que consiga conter o ímpeto dos togados. Até o PCC tem.

O ministro André Mendonça também admitiu, depois de descoberto, encontro com o dono do Master fora do tribunal. Paulo Gonet, ligeirinho ao produzir um parecer pela nulidade da investigação contra Alexandre de Moraes, é o mesmo que ganhou uma viagem a Londres com direito a levar o filho, e desfrutar de charutos e uísque de 30 anos sob o patrocínio do banqueiro corrupto e falido.

O paradoxo de Bruzundanga cresce em complexidade com a figura do ministro Dias Toffoli enredado na venda de um resort para um dos braços financeiros do Master. Outro ministro, Kássio Nunes Marques, voou a jato para uma festa em Maceió com a advogada de Vorcaro. Seu filho Kevin, de 25 anos, dois anos de OAB, firmou seu primeiro contrato de consultoria fiscal com a JBS e o Banco Master, no valor de R$ 18 milhões. Um talento precoce.

O diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues é outro que passeou às custas de Vorcaro. O homem do Master comprou a República inteira. Custou R$ 60 bilhões, desviados de fundos de aposentados e pensionistas de vários Estados.

Bruzundanga é um país de ficção. Lima Barreto o retratou como corrupto, formado por políticos medíocres e presidentes ignorantes chamados de "mandachuvas". Só governam para beneficiar aliados e parentes. Qualquer semelhança com o Brasil, é mera sem-vergonhice.