05 de setembro de 2026
POLÊMICA

Igreja de Mendonça cita cortes fora de contexto e exclui vídeos

Por Anna Virginia Balloussier | da Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min
Rosinei Coutinho/STF
André Mendonça, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal)

No dia 16 de agosto, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça pregou na IPP (Igreja Presbiteriana de Pinheiros). Ele é um dos 12 reverendos de lá e, naquele domingo em particular, deu um sermão sobre família.

O conteúdo normalmente ficaria disponível no YouTube da igreja. Não está. Não mais. A IPP optou por arquivar o material que ela tinha colocado no ar com falas de Mendonça. Fez o mesmo no Instagram.

A limpeza, segundo a igreja, foi realizada na quarta (2) à noite, após o aumento do que classifica como distorções de palavras do ministro. O que mais preocupa são cortes "absolutamente fora do contexto" feitos a partir dos vídeos oficiais, diz o presbítero Roberto Quirino, que trabalha na comunicação da IPP. "Ele é um pastor da igreja. Não tem relação entre o que ele prega e seu trabalho como ministro do STF."

O ministro divulgou nesta sexta (4) um vídeo agradecendo a "irmãos e irmãs" que lhe enviaram mensagens de "oração e carinho".

Mendonça está no olho do furacão político após tirar o sigilo sobre relatórios da Polícia Federal envolvendo mensagens entre o colega de corte Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Muitos desses cortes seguem a linha sensacionalista e não são necessariamente ataques ao ministro. Dá para dizer até que o exaltam. Um deles, por exemplo, promete revelar "um recado chocante ao Brasil". É o famoso caça-cliques, estratégia que usa títulos ou imagens exageradas ou enganosas para atrair visualizações na internet.

Ao clicar no link, o que se tem é Mendonça dizendo que "pesa sobre mim duas coisas, uma delas é a posição que ocupo hoje na esfera pública, e a segunda e mais importante é a posição como ministro do Evangelho". Fala em seguida que "todos são sujeitos a erros e equívocos" e que seus tropeços como ministro repercutem sobre toda a igreja. "Se for pra dar mau testemunho, que Deus me leve antes."

Ele também diz que, questionado se teria medo de entrar no STF, respondeu: "Não tenho medo nem da morte, quanto mais de uma posição [para a qual] Deus me prepare".

A maioria dos vídeos já foi derrubada pelo YouTube a pedido da IPP. São todos da mesma lavra, com títulos do tipo "Mendonça quebra o silêncio no culto e faz revelação de arrepiar" e "surpreende o Brasil com declaração que ninguém esperava". A tática deste e de outros cortes foi remover o fundo da igreja, substituindo-o por um fundo neutro, para "pegar conteúdo da igreja e associar ao STF".

"A igreja estava sendo vítima de pessoas que baixam material do nosso canal sem autorização, adulteram o conteúdo, tiram do contexto e publicam claramente em busca de engajamento", diz o presbítero Quirino. "Nossa única defesa possível foi privar temporariamente."

Haveria um problema inclusive institucional, já que a IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil), ao menos na teoria, veta falas abertamente políticas dentro do templo. "A IPB realmente não mistura política com púlpito. Por isso as pregações do reverendo André são bíblicas", diz Quirino.

Ele diz que o arquivamento dos materiais da IPP no YouTube não deve durar muito. "Assim que possível, acredito que semana que vem talvez, a gente vai disponibilizar novamente e acompanhar se ainda usarão indevidamente. Pra quem quiser usar na íntegra com os devidos créditos, o caminho é pedir autorização prévia."

No combo de conteúdos no radar da igreja há vídeos que são apenas críticos a Mendonça e nada usam de postagens feitas pela IPP. Um dos links encaminhados à reportagem foi compartilhado pelo deputado Henrique Vieira (PSOL-RJ), pastor assim como o ministro, e questiona um encontro que ele teve com Vorcaro.

O próprio Mendonça reproduz vídeos de si que já não estão mais na TV virtual de sua igreja. Na véspera de remover o sigilo do relatório da PF que cita Moraes, ele postou no Instagram uma de suas pregações. O corte é breve e diz que "é tempo de avivamento na igreja".

"Há momentos em que uma geração é chamada a preparar o caminho para as próximas. Creio que este é um desses tempos", ele diz na legenda. "É tempo de avivamento na Igreja. É tempo de assumirmos a responsabilidade que nos foi confiada e prepararmos bases firmes para aqueles que virão depois de nós."

Voltou a acionar a voltagem cristã em encontro com líderes religiosos na quinta (3), no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Pediu para Deus abençoar os que representam o Poder Judiciário e "o sistema de Justiça como um todo", para que assim possam "honrar a confiança que o principal, que é o povo, o cidadão, deposita".

Mendonça tem recebido endosso de líderes de sua fé, ressuscitando a figura do "terrivelmente evangélico" que marcou sua indicação por Jair Bolsonaro ao Supremo.

A começar por Arival Dias Casimiro, pastor titular da IPP, que compartilhou no Facebook uma foto dos dois. Ali escreveu: "Estamos juntos no temor ao Senhor, no amor à justiça e na prática da misericórdia. O sol nasce para todos, mas a sombra e o esconderijo do Altíssimo são para os que confiam no Senhor. Que Deus tenha misericórdia do Brasil e que a justiça prevaleça".

O apóstolo Estevam Hernandes, que lidera a igreja Renascer em Cristo e a Marcha para Jesus, convocou uma corrente de oração "pelo nosso irmão", chamando-o de "meu amigo" e "um homem que respeito pela sua fé, caráter e integridade".

"Eu creio que ele fala suas profundas convicções espirituais", diz Hernandes à Folha. "Ele tem relacionamento com Deus, é pastor ungido. Então evocar a Deus faz parte da sua essência. Não é ser evangélico que faz a diferença, mas sim seu testemunho de vida e fé."

O pastor Silas Malafaia também saiu em defesa de Mendonça, que teria agido com ética e ao suspender o sigilo dos relatórios policiais envolvendo Daniel Vorcaro e encaminhar o material para o ministro Edson Fachin.

Ele critica Moraes por solicitar uma investigação contra Mendonça por abuso de autoridade, argumentando que o ministro não tinha como prever o teor das mensagens reveladas e que ele não fez nada além de cumprir seu papel institucional. "Qual o pecado? Qual o crime do André Mendonça? Nenhum! Ele tem bola de cristal? Que a quebra do sigilo telefônico ia mostrar a sujeira de Alexandre de Moraes? Claro que não."