29 de agosto de 2026
COLUNISTA

A luz que se transforma em oração


| Tempo de leitura: 3 min

Neste 22º domingo do tempo comum as leituras nos levam a compreender que há sofrimentos que não escolhemos. Eles chegam à nossa porta: uma doença, uma perda, uma injustiça, uma decepção, uma incompreensão. A fé cristã não nos torna masoquistas, nem nos ensina a procurar o sofrimento. O cristão não ama a dor pela dor. Mas, quando a cruz se apresenta, somos chamados a enfrentá-la com fé e a unir nosso sofrimento ao sacrifício de Cristo, transformando-o em oração e oferta pela salvação do mundo.

A primeira leitura (cf. Jr 20,7-9) nos coloca diante do drama do profeta Jeremias. Ele sente o peso de sua missão: é ridicularizado, incompreendido e deseja até desistir. Confessa ao Senhor: "Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir". (Jr 20,7). Jeremias descobre que anunciar a Palavra de Deus pode ter um preço. Mesmo cansado e ferido, porém, há dentro dele um fogo que não consegue apagar: "Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo". (Jr 20,9). O sofrimento não é o fim de sua vocação; torna-se parte de sua fidelidade.

No Evangelho (cf. Mt 16,21-27), Jesus revela aos discípulos que sua missão passará pela cruz: "Devia ir a Jerusalém e sofrer muito [...] e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia". (Mt 16,21). São Pedro não consegue aceitar isso. Quer um Messias sem sofrimento, uma vitória sem cruz. Por isso, Jesus o adverte: "Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!" (Mt 16,23). E então vem o chamado dirigido a todos nós: "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga". (Mt 16,24). Tomar a cruz não significa procurar sofrimentos, muito menos permanecer passivamente diante da injustiça. Significa permanecer fiel a Cristo também quando a fidelidade custa, quando amar exige renúncia, quando perdoar dói, quando fazer o bem não é reconhecido.

É exatamente isso que São Paulo explica na segunda leitura (cf. Rm 12,1-2): "Ofereçais a vós mesmos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus" (Rm 12,1). Nossa vida inteira pode tornar-se oferenda. O trabalho realizado com honestidade, o cuidado silencioso com alguém, a paciência diante das dificuldades, a renúncia por amor, a dor suportada com esperança: tudo pode ser colocado sobre o altar do coração e unido à oferta de Cristo. Por isso, quando o sofrimento bater à nossa porta, não precisamos recebê-lo com desespero. Podemos dizer: Senhor, eu não escolhi esta cruz, mas quero carregá-la contigo. Recebe a minha dor e une-a ao teu sacrifício pela salvação do mundo. Assim, a dor não se torna inútil. Pela graça, pode transformar-se em oração, amadurecimento e oferta de amor. São Paulo acrescenta: "Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar". (Rm 12,2). O mundo pode nos ensinar a fugir de toda dor a qualquer preço. Cristo nos ensina algo diferente: não a buscar, mas a atravessar a cruz com amor, esperança e confiança na ressurreição.

A cruz nunca é a última palavra. O mesmo Jesus que anuncia sua paixão anuncia também: "ressuscitar no terceiro dia" (Mt 16,21). É essa esperança que sustenta o cristão. Unidos a Cristo, nossos sofrimentos podem tornar-se oração; nossas renúncias, oferenda; e nossa cruz, caminho para a vida.