22 de setembro de 2026
COLUNISTA

O dente que reabsorveu por dentro

Por Alberto Consolaro | Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC
| Tempo de leitura: 3 min
Reabsorções Internas em radiografias periapicais e, no esquema, tem-se cortes esquemáticos axial e coronal

No interior do dente temos a polpa, que os antigos chamavam de “nervo”. Ela é formada por tecido conjuntivo bem vascularizado tal como a derme e submucosa, ficando isolada de quase tudo, pois é envolta por dentina, que ela mesmo produz ao seu redor. 

O espaço ocupado pela polpa, quando esvaziado pela sua morte ou retirada, passa ser chamado de canal. O sangue chega na polpa dentária por vasos e nervos que adentram no ápice da raiz através de um orifício chamado forame apical que tem um diâmetro médio de 0,2 a 0,4mm em jovens. 

Ao redor da polpa e grudados na dentina que representa a parede interna do canal, temos um “revestimento” ou uma camada de células ditas odontoblastos, que, como verdadeiros azulejos, escondem ou isolam a dentina que produzem, do resto do organismo. 

A dentina tem proteínas que o organismo não sabe que são nossas e as reconhecem como antígenos ou estranhas. Em qualquer situação, se a dentina ficar exposta aos tecidos moles, o sistema imunológico manda os clastos irem até ela e reabsorvê-la. Mas, o “revestimento” de odontoblastos não deixa a dentina ficar exposta internamente aos tecidos moles da polpa.

MOVIMENTO BRUSCO”: PANCADA

Se um traumatismo leve atuar no dente, pode não romper os vasos que entram pelo forame apical e a polpa vai continuar viva. Não haverá necrose e nem metamorfose cálcica da polpa. A polpa continua normal. Estes traumatismos leves podem ser referidos como Concussão Dentária.

Mas, a batida brusca da bolada, pancada da mão ou batida acidental pode provocar um deslocamento celular em um determinado ponto da camada de odontoblastos, como “azulejos se soltando da parede”, em área menor que um milímetro. Os odontoblastos saem da parede naquela área restrita e se deslocam para a parte mais central da polpa, deixando este ponto com a dentina exposta.

A exposição focal e pontual da dentina atrai os clastos a mando do sistema imunológico via mediadores, para retirar as proteínas antigênicas ou estranhas que foram detectadas. Naquele ponto então, se inicia uma reabsorção dentária inflamatória interna referida como Reabsorção Interna.

COMO APARECE

No contorno da parede interna, se forma uma dilatação focal que na radiografia e tomografia parece um balão ou bexiga bem radiolúcida, simétrica, regularmente delimitada e nítida em seus limites. Se não for assim, deve ser uma reabsorção externa cujas imagens são irregulares e confusas. 

A Reabsorção Interna pode ser bem pequena, mas lentamente expande assintomática por dentro do dente, até chegar ao ponto de perfurar a superfície externa. Se for dente de uma raiz, pode fragilizar a estrutura a ponto de ocorrer fratura secundária. 

O dente tem sensibilidade e cor normal. Se a reabsorção interna for na parte interna da coroa, à medida que vai aumentando, através do esmalte, pode se ver uma mancha ou ponto levemente rosado, típico sinal da Reabsorção Interna coronária.

Bem antigamente, quando as radiografias eram ainda precárias, se acreditava que a Reabsorção Interna era um tumor da polpa que crescia lentamente. O tempo e as pesquisas revelaram que isto não fazia o menor sentido e que na polpa, nenhuma neoplasia se origina de seus tecidos.

TRATAMENTO E REFLEXÃO FINAL

O tratamento da Reabsorção Interna requer tratamento endodôntico, removendo a polpa e preenchendo o canal com obturação adequada. Se for um caso pequeno ou médio, o prognostico é muito bom. Se for maior, o risco de fratura requer reforço adicional na obturação. Quando já perfurou a raiz, quase sempre se opta pela exodontia, mas antes dos implantes, se tentava preservar o dente e muitos casos dava certo. 

Traumatismo dentário é a única causa da Reabsorção Interna e outras situações não têm nada a ver com sua etiologia, incluindo o trauma oclusal, movimento ortodôntico, cárie, restaurações, etc.

Importante: se um dente com Reabsorção Interna revelar lesão periapical crônica, é porque, depois dela, um outro traumatismo ou cárie promoveu a necrose pulpar e sua contaminação microbiana. A Reabsorção Interna por si só não mata a polpa!