O crescimento desordenado, a verticalização desenfreada e a falta de preparo para lidar com eventos climáticos extremos estão comprometendo a qualidade de vida nas cidades brasileiras. O alerta foi feito pelo arquiteto, urbanista e professor da USP Nabil Bonduki, relator dos Planos Diretores de São Paulo (2002 e 2014) e ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente.
Em entrevista concedida ao JC/JCNET, o especialista apontou que municípios de médio e grande porte, como São Paulo e Bauru, enfrentam gargalos idênticos: piora nos congestionamentos, abandono do espaço público e avanço imobiliário sem contrapartida social. "Nós vamos sofrer, isso é certo, ondas de calor cada vez mais intensas. O solo precisa ser mais permeável para evitar enchentes, e a arborização urbana tem papel central no microclima e na vida humana. As cidades brasileiras simplesmente não estão preparadas para esse momento", afirmou Bonduki.
O urbanista apontou a priorização histórica dos automóveis em detrimento dos pedestres. Para ele, a falta de investimentos em calçadas acessíveis, iluminação e segurança desestimula a mobilidade ativa e desertifica as ruas. "O leito carroçável recebe manutenção constante, mas a mobilidade ativa é abandonada. É como se as pessoas não fossem consideradas pelo poder público. Você considera mais os carros do que as pessoas, o que gera uma cidade agressiva e pouco saudável", disse.
Combate a imóveis ociosos e centro histórico
Outro ponto central abordado por Bonduki é o não cumprimento da função social da propriedade. Para combater a especulação imobiliária e combater a degradação dos centros urbanos (marcados por edifícios abandonados), ele defende a aplicação rigorosa de instrumentos previstos no Estatuto da Cidade, como a notificação de edifícios ociosos, a aplicação do IPTU progressivo no tempo e, se necessário, a desapropriação com títulos da dívida pública.
"Essas áreas ociosas ocupam terrenos que já têm infraestrutura, luz e transporte, mas fazem a cidade crescer horizontalmente para a periferia, gerando desperdício de recursos públicos. A prefeitura precisa pressionar os proprietários e utilizar essas áreas para habitação social ou equipamentos públicos", pontuou.
Ele defendeu, ainda, a criação de um Programa Nacional de Reabilitação de Centros Urbanos com financiamento federal para recuperar regiões históricas e romper ciclos de degradação social e insegurança.
Gestão de resíduos e propostas para o Congresso
Ex-secretário de Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente e candidato a deputado federal, Bonduki defendeu a ampliação da logística reversa e da economia circular, atribuindo responsabilidade às indústrias pelo descarte de embalagens e produtos perigosos (como pilhas, lâmpadas e eletrônicos), à semelhança do modelo europeu.
Sobre suas pretensões políticas, o urbanista ressaltou a necessidade de qualificar o debate sobre o direito às cidades no Congresso Nacional, propor o fortalecimento de governos regionais/metropolitanos e articular políticas que unam educação integral e cidadania cultural.
"A minha candidatura busca levar para o Congresso o cotidiano da vida das pessoas: árvores, transporte, habitação e espaço público. Um legislador pouco qualificado acaba desqualificando a própria democracia. Precisamos debater e defender as nossas cidades e as nossas instituições com propostas consistentes", concluiu.