15 de agosto de 2026
SEGURANÇA PÚBLICA

Modelo que reduziu furtos em 80% pode inspirar Bauru

Por Priscila Medeiros |
| Tempo de leitura: 3 min
Priscila Medeiros
Paulo Tambara elaborou plano que reduziu furto em Indaiatuba

Enquanto Bauru enfrenta ocorrências recorrentes de furtos de fiação e em estabelecimentos comerciais, a experiência de Indaiatuba, município de 255 mil habitantes, mostra que planejamento, inteligência e integração entre os órgãos públicos podem contribuir para reduzir significativamente os índices criminais. Segundo o especialista em gestão pública Paulo Tambara, responsável pelo planejamento implantado naquela cidade, os furtos e roubos caíram cerca de 60% em dois anos e chegaram a uma redução de aproximadamente 80% ao longo de uma década.

Tambara foi convidado entre 2008 e 2009 para elaborar um diagnóstico e propor mudanças na então Guarda Municipal de Indaiatuba, que apresentava índices elevados de criminalidade. O trabalho resultou em um plano de gestão que foi adotado pela Prefeitura e posteriormente implantado pelo próprio especialista, com acompanhamento anual das ações, definição de prioridades e utilização de ferramentas de resolução de problemas.

Entre as medidas adotadas esteve a criação de um centro de inteligência, combinando ferramentas de gestão e tecnologia. A cidade também implantou uma Muralha Digital, que, segundo Tambara, transformou Indaiatuba em uma espécie de laboratório para testar novas soluções tecnológicas voltadas à segurança pública. A estratégia fez com que o município se tornasse referência nacional em segurança para cidades entre 200 mil e 500 mil habitantes.

Um dos principais desafios enfrentados foi o chamado "furto oportunista", que inclui ocorrências como subtração de cabos, fios e celulares. Para combater esse tipo de crime, a estratégia não se concentrou apenas na prisão de quem pratica o furto, mas também no enfrentamento da cadeia de receptação. A lógica, segundo o especialista, é reduzir a atratividade econômica do crime por meio da fiscalização intensiva de quem compra, armazena ou revende materiais furtados.

A experiência de Indaiatuba envolveu o mapeamento das áreas com maior incidência de furtos e a identificação de ferros-velhos, depósitos, atravessadores e compradores de materiais. A fiscalização desses estabelecimentos passou a ser tratada como uma atividade permanente, com verificação de alvarás, procedência dos produtos, horários de funcionamento e eventuais movimentações suspeitas. Operações frequentes, especialmente nos primeiros meses de implantação do programa, também foram utilizadas para demonstrar a presença contínua do poder público.

Outro ponto considerado fundamental foi a integração entre Prefeitura, Guarda Municipal, polícias Militar e Civil e os setores de fiscalização. Em Indaiatuba, essa articulação levou anos para ser consolidada. Atualmente, segundo Tambara, a Polícia Militar mantém um representante no centro de inteligência, compartilhando informações e permitindo coordenar o atendimento das ocorrências para evitar a duplicidade de viaturas.

Para o especialista, o combate aos furtos de fios e cabos também exige atenção à população em situação de rua, com políticas de assistência social e tratamento quando necessário, sem associar automaticamente vulnerabilidade social à criminalidade. Ele defende ainda o acompanhamento frequente dos resultados, com análise semanal dos índices e correção das estratégias sempre que necessário.

A orientação central do modelo é que prender o autor do furto, isoladamente, não resolve o problema. A estratégia deve atingir também o mercado que compra o material roubado. Com fiscalização contínua, integração das forças públicas e uso de inteligência, a expectativa é tornar a comercialização dos produtos furtados mais difícil e, consequentemente, reduzir a lucratividade do crime.

Tambara ressalta, porém, que a implantação de uma estrutura de segurança exige planejamento e recursos. Ele cita como exemplo a necessidade de efetivo e estrutura para manter postos de atendimento, além de ferramentas tecnológicas. Segundo ele, Indaiatuba iniciou a implantação de seus recursos tecnológicos ainda em 2008.

A experiência apresentada pelo especialista sugere, portanto, que o enfrentamento dos furtos de fios e cabos depende de uma estratégia permanente, e não apenas de operações pontuais. O modelo adotado em Indaiatuba combina planejamento, inteligência, fiscalização, tecnologia e integração entre os órgãos públicos, medidas que, segundo Tambara, foram determinantes para a expressiva redução dos índices criminais registrada no município.