Após três anos à frente do Ministério dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara (Psol) voltou à Câmara dos Deputados com a intenção de ampliar a representação indígena no Congresso Nacional e dar continuidade ao projeto político iniciado pelo movimento indígena. Primeira indígena a comandar um ministério no Brasil, ela afirma que pretende seguir na política para avançar na defesa dos direitos dos povos originários e ampliar a bancada indígena no Parlamento.
Em entrevista ao JC/JCNET, Sonia contou sua trajetória de vida e o porquê é pré-candidata à deputada federal. Natural do Maranhão e integrante do povo Guajajara, Sonia nasceu no território indígena Araribóia e iniciou sua trajetória política no movimento indígena. Segundo ela, sua atuação começou nos movimentos estadual e amazônico, até chegar à articulação nacional. "Eu fiquei nove anos à frente do movimento indígena nacional, a APIB, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil", afirmou.
A entrada na disputa eleitoral ocorreu a partir de uma decisão do próprio movimento indígena, que passou a defender a presença de representantes dos povos originários no Parlamento. Em 2018, Sonia foi candidata a vice-presidente da República na chapa de Guilherme Boulos, pelo PSOL. Quatro anos depois, em 2022, o movimento decidiu fortalecer candidaturas indígenas, especialmente de mulheres. A estratégia resultou na eleição de três mulheres indígenas, entre elas Sonia, eleita deputada federal por São Paulo.
Logo após a eleição, Sonia recebeu o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comandar o recém-criado Ministério dos Povos Indígenas. Ela se tornou a primeira indígena a ocupar o cargo de ministra no país. Durante os três anos de gestão, participou da estruturação da pasta, da elaboração de políticas públicas e de ações relacionadas à demarcação e proteção de territórios indígenas. Para Sonia, a própria criação do ministério representa um dos principais legados de sua passagem pelo governo. "Mais de 200 anos do Brasil República ter o primeiro Ministério dos Povos Indígenas já é uma grande conquista", declarou. Segundo ela, a pasta também ajudou a colocar a pauta indígena no centro das políticas públicas e ampliar a participação dos povos originários em diferentes espaços da sociedade.
Entre as ações destacadas pela ex-ministra estão a homologação de 20 territórios indígenas e a declaração de outros 21 pelo Ministério da Justiça, além da criação de mecanismos de inclusão de indígenas no serviço público. Ela cita como exemplo a reserva de 30% das vagas para indígenas no concurso da Funai. "Isso foi um grande feito", afirmou. Ao deixar o ministério e retornar à Câmara, Sonia passou a concentrar novamente sua atuação no mandato parlamentar. Entre as iniciativas em andamento está uma proposta de emenda à Constituição para destinar parte das emendas parlamentares destinadas à saúde à saúde indígena. A intenção, segundo ela, é garantir recursos para ações como fornecimento de água potável e saneamento básico nos territórios, tão necessários à saúde dos povos indígenas.
A deputada também relata que pretende apresentar novos projetos de lei antes do fim do mandato. "Estou elaborando agora outros projetos de lei, para que eu possa, até o final do ano, nesse pouco tempo que me resta, ter ali projetos protocolados e já algum mais avançado na tramitação", disse.
É nesse contexto que Sonia coloca sua intenção de disputar a reeleição. Para ela, o retorno à Câmara representa uma nova etapa de um projeto político iniciado dentro do movimento indígena e que ainda precisa ser ampliado. "Por que a reeleição? Porque a gente tem muito por fazer ainda", afirmou. Segundo a deputada, a experiência no ministério mostrou a importância de ampliar a presença indígena no Legislativo. "Agora foi o início do nosso projeto aldeia política", declarou. "Eu vejo que ali tem essa necessidade da gente aumentar nossa bancada. Então eu vejo que agora eu preciso seguir a minha missão também ali como deputada no Congresso."
A parlamentar afirma que pretende utilizar um eventual novo mandato para contribuir com a elaboração de leis voltadas aos povos indígenas. "A gente possa mudar mais ainda essa realidade dos povos indígenas, levando melhorias, mais qualidade de vida, mais garantia de direitos e facilidade no acesso às políticas", afirmou.