08 de agosto de 2026
CLIMA ATÍPICO

Chuvas de inverno confundem árvores e antecipam floradas em Bauru

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 2 min
Priscila Medeiros
Chuvas fora de época 'confundiram' as mangueiras, que anteciparam a floração

O excesso de chuvas registrado neste inverno em Bauru, impulsionado pelas mudanças climáticas, tem provocado alterações no ciclo natural de diversas espécies vegetais. Árvores como ipês e mangueiras, que normalmente florescem em períodos específicos do ano, estão antecipando a floração, um fenômeno considerado incomum por especialistas e que pode trazer consequências para a reprodução das plantas, a produção de sementes e o equilíbrio ambiental.

De acordo com o diretor do Jardim Botânico Municipal de Bauru, Luiz Carlos de Almeida Neto, o principal fator que regula o desenvolvimento das plantas é o fotoperíodo, ou seja, a quantidade de horas de luz e de escuridão ao longo do dia. No entanto, temperatura e regime de chuvas também exercem influência decisiva sobre o metabolismo vegetal. "O fotoperíodo é o fator principal, mas ele nunca está sozinho. Ele sempre está associado às questões climáticas, principalmente temperatura e chuva. Esses estímulos ativam hormônios que favorecem o florescimento das plantas", explica. Segundo Almeida Neto, as mudanças climáticas têm provocado oscilações bruscas de temperatura e períodos chuvosos em uma estação que tradicionalmente é seca. Isso faz com que as plantas recebam sinais contraditórios e antecipem fases do seu ciclo.

"O ipê-branco é a espécie em que mais percebo isso. Já vi florescer em maio, em julho, quando o normal seria entre a segunda quinzena de setembro e outubro. Quando a planta floresce muito cedo, muitas vezes a flor seca no próprio pé e não produz frutos nem sementes", afirma. O especialista alerta que florações repetidas também representam um desgaste para as árvores, que passam a gastar energia em um processo reprodutivo fora de época. Além disso, a redução na produção de sementes pode comprometer viveiros e projetos de restauração florestal, além de afetar aves e insetos que dependem das flores e frutos para alimentação e reprodução.

De acordo com o engenheiro agrônomo Mário Augusto Camargo, essa "confusão" no clima afetou também as árvores frutíferas. "As mangueiras anteciparam a florada porque estão 'achando' que é primavera. Em pomares comerciais isso é um problema, porque os frutos ficam despadronizados, em tamanhos diferentes", afirma. Já em árvores domésticas, o fenômeno costuma ser apenas uma curiosidade para os moradores, não ocasionando problemas com os frutos. Segundo Camargo, na agricultura comercial existem técnicas para corrigir esse comportamento, como o uso de produtos que interrompem a florada precoce e estimulam uma nova floração na época adequada, garantindo uma produção mais uniforme.