08 de agosto de 2026
VIRAL NAS REDES

Farmar aura para não flopar

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

Tive que correr atrás para saber o que é "farmar aura", uma expressão que surgiu na internet e começou a ser utilizada até pelos chargistas. Entendi que "farmar aura" é fazer algo legal ou engraçado para impressionar os outros. Trata-se de gíria da geração "Z" que significa acumular carisma, estilo e respeito. Fazer algo pelo qual a pessoa possa ser admirada, notada, respeitada.

Historicamente, essa estratégia para aparecer ou ser aceito na comunidade existe há muito. Tribos amazônicas utilizam formigas de fogo presas a uma esteira de palha que envolve o braço do candidato à maioridade. O guerreiro tem que mostrar que aguenta a dor das picadas até farmar aura para o pessoal da taba. Menos dolorosos, antes da internet tivemos outras formas de busca de validação social com exibições de capoeira, e a break dance, a dança urbana dos negros do Bronx, dos anos 1970, essência da cultura hip hop.

"Farmar" vem do videogame e quer dizer ganhar pontos, moedas, vidas, munições no mundo "gamer", ou seja, nos jogos eletrônicos. A "aura" fica por conta de criar uma maneira de parecer charmoso ou talentoso para mostrar um "brilho" próprio. São modismos que tendem a desaparecer com o tempo, substituídos por outros com nomes a serem criados. O idioma, língua oficial de um povo ou de uma nação, precisa de uma certa estabilidade para servir como meio de comunicação assimilável pela maioria e como sinal de identidade. Com tantos neologismos, a tarefa de unificação ligada a um Estado político poderia ficar comprometida. Ou não?

Fico preocupado com os pais que têm filhos menores e não conseguem acompanhar as constantes mutações da linguagem e dos padrões de comportamento. Para pertencerem ao grupo, os jovens têm que replicar os comportamentos do seu grupo. Evolutivamente é uma estratégia de sobrevivência que sinaliza o "eu pertenço", como explicam os psicólogos sociais. A exclusão social ativa no cérebro as mesmas regiões da dor física, enquanto a aceitação e mutação de grupo liberam dopamina e ocitocina, que fazem parte do "quarteto da felicidade". A dopamina é um neurotransmissor da motivação, foco e recompensa liberada ao atingir metas. A ocitocina é conhecida como o "hormônio do amor" e do vínculo social, liberada em abraços e carinhos. Completam o quarteto a serotonina (bem-estar) e a endorfina (alívio da dor). Torna-se uma missão quase impossível segurar filhos em casa, ansiosos por liberar tanta felicidade lá fora. Farmar aura já acontecia na antiga "farra do bode", desorganizada, mas inofensiva.

O problema é "flopar", como pai. Outra palavra em uso na geração alfa para dar conta de quando algo não vai bem, se comporta de um jeito diferente, rateia. Aí aparece o "six seven", que ninguém sabe o que é. Essa é a graça. O meme global chegou até o espaço quando um dos membros da Artemis 2 fez um movimento frenético das duas mãos indo para cima e baixo. Considerada pelo Dictionary.com como a palavra do ano, é uma espécie de piada ou código interno da primeira geração da nativos digitais puros, nascidos entre 2010 e 2025. Convivem com telas e Inteligência Artificial desde bebês. Têm o aprendizado baseado em vídeos curtos, jogos e interatividade.

Ainda bem que já não tenho filhos ou netos pequenos. Teria flopado. Hoje, o sucesso de um conteúdo ou produto é medido pelo "valor de conversa" que detém. Isto é, o quanto se debate nas redes sociais e cria novas relações. Novela, livro, qualquer conteúdo destinado à comunicação só existe se houver capacidade de gerar barulho, reverberar, fomentar conversa no público-alvo. Políticos em campanha querem farmar aura pelas acusações mútuas de corrupção. Adversários usam suspeitas, escândalos e investigações policiais para enfraquecer rivais públicos em disputa de poder. Em palcos e e palanques os debates giram em trocas diretas de denúncias. Essa política já flopou para as novas gerações. Nem eleitores querem ser.