09 de agosto de 2026
PAPEL PATERNO

O fim do pai distante: a revolução emocional que mudou os lares

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Priscila Medeiros
De acordo com Cláudio Salviano, a presença afetuosa e engajada do pai traz benefícios não só para os filhos, como para a estrutura familiar

A paternidade contemporânea passa por uma das transformações mais profundas e positivas da história recente. O antigo modelo de pai focado quase exclusivamente na provisão financeira e na disciplina rígida deu lugar a uma figura presente, afetuosa e atenta às necessidades emocionais da família. Mais do que uma mudança de comportamento no lar, essa evolução representa um resgate da saúde mental dos filhos e da estabilidade familiar, conforme aponta o psicólogo Cláudio Salviano.

Historicamente, a estrutura familiar exigia do homem uma postura distante e estritamente normativa, onde falar sobre emoções, sexualidade ou angústias era um tabu intransponível. Hoje, contudo, os pais não apenas desempenham o papel de pilar protetor, mas dividem ativamente a rotina doméstica, o diálogo e o cuidado diário desde os primeiros dias de vida das crianças. "Historicamente, vemos uma estrutura em torno da provisão material e da proteção física. Mas o papel do pai expandiu para incorporar um envolvimento afetuoso. Os pais se tornaram mais cuidadosos. A história demonstra que o homem resgatou a oportunidade de exercer uma paternidade de forma mais integral.", frisa Salviano.

Aproximação e Afeto em Vez de Tabus

Segundo o psicólogo, a principal diferença entre a paternidade atual e a vivida por gerações anteriores reside no vínculo de proximidade. Se antigamente muitos pais sequer conseguiam verbalizar sentimentos ou expressar carinho, a geração atual busca o diálogo aberto. "Nas décadas passadas, a postura era mais distante e focada na disciplina normativa. Hoje, a paternidade se destaca pelo engajamento. É o pai que senta à mesa, escuta o filho, brinca, consola e participa diariamente da formação emocional da criança", explica Salviano. Ele relata que, em sua prática de consultório, casos de pais incapazes de dizer "eu te amo" aos filhos tornaram-se raros, um reflexo direto dessa virada cultural.

Essa mudança, porém, não significa a anulação da autoridade moral ou da responsabilidade financeira. O psicólogo enfatiza que os pilares tradicionais de proteção e liderança continuam vivos, mas foram enriquecidos pela dimensão afetiva. A liderança paterna deixou de ser vista como um distanciamento e passou a ser exercida como uma "liderança amorosa e firme", essencial para impor limites e garantir o equilíbrio do desenvolvimento infantil. Diversos fatores impulsionaram essa mudança de comportamento. A entrada das mulheres no mercado de trabalho exigiu uma reorganização dinâmica dos lares. Ao mesmo tempo, avanços na neurociência e na psicologia comprovaram o impacto insubstituível da figura paterna para a estabilidade emocional e a saúde mental dos filhos.

Por outro lado, o homem moderno enfrenta novos dilemas psicológicos. Diante da desconstrução de papéis rígidos e da cobrança por perfeição, muitos pais relatam um forte sentimento de sobrecarga e ansiedade, podendo desenvolver o chamado burnout parental. "O homem contemporâneo vivencia a síndrome do perfeccionismo. Tentar ser o provedor impecável, o parceiro atencioso, o pai emocionalmente disponível e profissionalmente bem-sucedido pode gerar esgotamento. O remédio é compreender que a paternidade não exige perfeição, exige constância, amor verdadeiro e presença.", destaca Salviano.

Marcas da ausência e a força dos vínculos

Em contrapartida à evolução positiva, a ausência emocional ou física do pai, deixa cicatrizes profundas. Salviano ressalta que a falta da referência paterna pode gerar insegurança estrutural, dificuldades com regras e autoridade, vulnerabilidade social e maior predisposição à ansiedade e depressão na vida adulta.

Nestes casos, o especialista aponta que a busca por mentores e a dimensão da espiritualidade podem atuar com papel terapêutico e restaurador para ressignificar a dor do abandono. "A qualidade dos vínculos afetivos é o fator mais determinante para a saúde psíquica. O amor incondicional, a proteção e a orientação moral sobrepõem-se até mesmo à estrutura formal da família", reforça.

Para os pais que buscam exercer um papel ativo e saudável nos dias de hoje, o especialista aconselha desligar as telas nos momentos de convívio, cultivar o exemplo de caráter e equilibrar a firmeza com a doçura. "Afeto sem limites gera mimadismo e insegurança; limites sem afeto geram revolta e medo. A autoridade exercida com afeto e serenidade é a maior herança de segurança emocional que um pai pode deixar para seus filhos", conclui Salviano.