18 de julho de 2026
OPINIÃO

Credencial Auspicioso

Por Claudia Zogheib |
| Tempo de leitura: 2 min

Outro dia li uma reportagem que anunciava o retorno das pessoas redescobrindo a arte, ter uma biblioteca em casa, viagens onde a erudição volta a ter o seu lugar no centro da mesa. Várias interpretações poderiam ser dadas para o fato, não somente por este belíssimo retorno, mas pela percepção de que cultivar interesse pela cultura é um bom presságio.

Dinheiro compra quase tudo, menos tempo perdido e as transformações internas que uma boa leitura e a arte são capazes de proporcionar. Não dá para improvisar o aprendizado e o prazer que sentimos quando terminamos um bom livro ou no contato com a arte, mas declaram um lugar de pertencimento a partir de um conhecimento.

Na política, na cultura, na forma como entendemos e torcemos para o futebol, sinalizam como introjetamos e assimilamos o mundo ao redor, seja ele hostil ou não. Há também uma certa ambivalência no gosto equivocado pela erudição, que é quando se cultua para além de um merecimento que foi adquirido a partir de sua compreensão, e acaba soando estranho tratarmos o conhecimento desta maneira porque ele não nasceu para isto, mas para transformar a nossa percepção de mundo ao reatar nosso universo intrínseco, vezes
perdido com coisas banais ou um ego inflado, com atividades que expandem além do cotidiano, e se há uma busca por aplausos em vez de um humilde reconhecimento de sua grandeza, recriam o contrafluxo do próprio sentido de sua existência que é humanizar a vida a partir da beleza e da constatação histórica das coisas.

São estas coisas que aprofundam a vida em sociedade, como a política está sendo executada nos tempos atuais, como o futebol é jogado em campo, as ideologias religiosas, enfim, a vida – observe as atitudes e verás quem são os sujeitos.

Voltando ao texto que li, no final estava escrito mais ou menos assim: “...tratar Beethoven como um artigo de luxo soa estranho. Sua música não depende da renda de quem a escuta, mas da formação de quem a compreende.”

Este é o nosso lugar no mundo, compreender a fim de formar opinião para não cair no obscuro erro de usar a dialética do mau uso da experiência como recorte do presente.

Música “Autumn Leaves”, KoN

A autora é psicanalista, especialista pela USP – Departamento de Psicologia, Psicóloga Clínica formada pela USC, responsável pelas páginas @zogheibclaudia, @cinemaeartenodiva, @livros.no.diva, @auguri_humanamente