20 de julho de 2026
130 ANOS DE BAURU

História da Baixada do Silvino em Bauru: onde tudo começou

Por Priscila Medeiros e Alex Gimenez Sanches | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Priscila Medeiros
Quadra dois da rua Araújo Leite com a Casa dos Pioneiros no lado direito.

Era a década de 1930, e Bauru já vivia um período de intenso desenvolvimento, com grande circulação de pessoas que chegavam à cidade não apenas pela ferrovia, mas também em carroças e carros de boi, em busca de negócios ou de uma nova oportunidade de vida.

Entre esses pioneiros estava Silvino Ferreira, português nascido em 1906, que escolheu Bauru para estabelecer seu comércio e construir sua trajetória. Inicialmente, abriu um bar. Depois, instalou um empório, uma lenhadora e, posteriormente, um posto de combustíveis, todos no mesmo trecho da Vila Alves Seabra. Casado com Ângela Maria Bertuzzi, teve cinco filhos: Osvaldo (Vadico), Amélia, Natalina, Luiz Carlos e Avelino.

Segundo o historiador Alex Sanches, a região era uma das principais portas de entrada de Bauru antes da expansão urbana para outras áreas e concentrava parte significativa da atividade econômica da cidade. "Na primeira metade do século XX, era comum que moradores da zona rural chegassem de carroça ou a cavalo para negociar produtos na Baixada do Silvino, que concentrava de tudo um pouco: armazéns, casas de secos e molhados, empórios, farmácia, oficinas, bares, comércio de madeira, posto de combustíveis e até uma fábrica de refrigerantes, a Guaraná King."

Comerciante popular e conhecido por manter boas relações com a comunidade, Silvino tornou-se, com o passar dos anos, a principal referência da área compreendida entre as ruas Boa Esperança e São Lourenço e as avenidas Nações Unidas e Nuno de Assis. Frequentado por moradores, viajantes e produtores rurais, o local passou a ser conhecido espontaneamente como Baixada do Silvino, denominação que permanece até os dias atuais.

O termo "baixada" faz referência ao relevo da região, um dos pontos mais baixos da cidade, que historicamente sofria com enchentes provocadas pelos ribeirões Bauru, Água do Castelo e das Flores.

Relatos de antigos moradores indicam que havia até um estacionamento para cavalos, onde os animais permaneciam enquanto seus proprietários faziam compras. A rua Floresta era considerada a principal porta de entrada de Bauru. Também há registros de que a comitiva do presidente Getúlio Vargas passou pela região em 1938.

A Baixada do Silvino também entrou para a história por ter sido palco da emboscada que resultou na morte do coronel Azarias Leite, em 1910 (leia o box).

No início dos anos 1980, a região recebeu pavimentação asfáltica. A Prefeitura substituiu os paralelepípedos (amplamente utilizados na pavimentação das ruas entre o início do século XX e a década de 1970) pelo asfalto.

As duas primeiras quadras da rua Araújo Leite, considerada por muitos como parte da Baixada do Silvino, embora esteja do outro lado do Rio Bauru, também recebeu pavimentação e sistema de galerias de águas pluviais. Durante muitos anos, ela foi a principal via da cidade e era conhecida com estrada do sertão.

Na quadra 2 da rua estão duas residências geminadas que preservam a memória do primeiro eixo urbano de Bauru. Os imóveis de números 2-63 e 2-65, conhecidos como Casa dos Pioneiros, foram tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac) em 2005. Atualmente, encontram-se escorados por estruturas de madeira, resistindo à ação do tempo enquanto aguardam restauração, após a batida.

Construídas em 1896, ainda no século XIX, as edificações foram erguidas em alvenaria autoportante (sistema construtivo em que as próprias paredes sustentam a estrutura, dispensando vigas e pilares convencionais), sem recuo frontal e com portas e janelas de madeira, as construções retratam os primórdios da ocupação urbana de Bauru. Em abril deste ano, a Prefeitura contratou, por meio de licitação, uma empresa do Ceará para elaborar os projetos técnicos de conservação e restauração das ruínas das duas casas.

Embora seu nome estivesse associado, há décadas, a uma das regiões mais tradicionais de Bauru, Silvino Ferreira permaneceu por muito tempo sem uma homenagem oficial. Até então, nenhuma rua, avenida ou praça levava seu nome. Em 2010 e 2016, familiares manifestaram publicamente o desejo de que esse reconhecimento fosse concedido.

A homenagem foi oficializada em 2019, quando a Câmara Municipal aprovou um decreto que deu o nome de Avenida Silvino Ferreira à via que liga a avenida Nações Norte aos residenciais Floratta, passando ao lado do Instituto Federal de São Paulo (IFSP).

Assassinato de Azarias Leite foi lá na Baixada

No dia 19 de outubro de 1910, o Coronel da Guarda Nacional Azarias Leite saiu cedo de sua Fazenda Aureópolis para inaugurar o Banco de Custeio Rural mas foi assassinado com três tiros nas proximidades do Rio Bauru. O local exato do fato diverge entre os memorialistas da cidade. Alguns apontam que o crime ocorreu na área que posteriormente ficou conhecida como Baixada do Silvino. Outros afirmam que foi logo após a ponte sobre o Rio Bauru, onde hoje fica o quarteirão 1 da rua Araújo Leite. O autor do crime, Joaquim Honorato, foi preso no dia 25 de outubro e confessou que o assassinato havia sido encomendado meses antes pelo juiz da Comarca de Agudos, preocupado com a possível transferência da sede do Judiciário para Bauru.

A morte de Azarias Leite provocou grande repercussão em todo o país e gerou forte comoção entre os moradores da cidade e da região. Paradoxalmente, o assassinato acabou acelerando o processo político que ele próprio defendia. Poucas semanas após o crime, foi oficializada a criação da Comarca de Bauru, em dezembro de 1910. O funcionamento efetivo ocorreu em março de 1911, sob a condução do primeiro juiz da cidade, Rodrigo Romeiro.