18 de julho de 2026
COLUNISTA

Esmalte dentário não regenera, nem repara

Por Alberto Consolaro | Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC
| Tempo de leitura: 3 min
Prismas de esmalte são milhões de colunas unidas de tecido muito duro; na superfície tem as pontas recobertas por uma muito fina camada de cristais

1. Um tecido pode se regenerar como o epitélio da pele quando as células vizinhas ao dano proliferam diretamente, sem intermediários e assumem a estrutura e funções das perdidas. São mitoticamente competentes e proliferam à vontade como os hepatócitos e as células da medula óssea. Este processo direto se chama REGENERACÃO.

2. Algumas células não proliferam mais o suficiente para regenerar os danos ocorridos. Isto acontece com as células musculares e os neurônios. Elas perderam a capacidade de entrar em mitose e gerar novas células para recompor as células perdidas.

3. Temos um terceiro tipo de células que são aquelas quando estimuladas adequadamente por mediadores da inflamação, proliferam de forma eficiente para reconstruir as partes perdidas. São os fibroblastos, osteoblastos, condroblastos além de outras.

As células do tipo 3 não conseguem se recompor diretamente dos danos. No local do dano, as células vizinhas irão voltar a um estágio quase embrionário para formar de novo vasos, nervos, fibras colágenas e novas células gerando um tecido intermediário que vai se amadurecer em alguns dias com um novo tecido muito parecido ou até igual ao que tinha ali naquele local que foi agredido.

Este tecido quase embrionário se chama tecido de granulação e serve para este processo indireto de recompor os tecidos que se chama de REPARAÇÃO como acontece na derme, osso, e outros tecidos conjuntivos do corpo.

NÃO FORMA MAIS

Cada parte do corpo tem características muito especiais. O esmalte dentário é o tecido mais duro e mineralizado do corpo. É formado antes do dente aparecer na boca, no interior dos ossos maxilares por células chamadas de ameloblastos. Quando o dente está na boca, significa que estas células morreram por apoptose e não tem mais como voltar a produzir esmalte. 
Não existe a mínima possibilidade de ressuscitarem e voltar a reconstruir o esmalte reproduzindo suas estruturas básicas ou colunas, chamadas de prismas de esmalte. Uma camada muito fininha e externa da superfície do esmalte é aprismática e composta por cristais de hidroxiapatita e fluorapatita.

Depois que apareceu na boca, o que se pode induzir no esmalte formado são trocas iônicas nos cristais e até recompor alguns que possam ter sido modificados por ácidos bacterianos e de outras origem como os clareadores dentários e alimentos. Isto pode ser chamado de remineralização ou recristalização, mas nunca de REGENERAÇÃO e nem de REPARACÃO do esmalte dentário. Estas trocas ocorre naturalmente com a saliva, alimentos e bebidas.

Quando um ácido bacteriano atua sobre o esmalte dentário teremos a CÁRIE DENTÁRIA que pode ser natural ou experimental. Se um ácido de origem não microbiana atuar sobre o esmalte removendo íons, o processo é conhecido como EROSÃO DENTÁRIA.

Em suas fases mais iniciais se pode interferir nestes processos para remineralizar ou recristalizar recompondo o conteúdo mineral, mas jamais este processo deve ser chamado de REGENERAÇÃO ou de REPARAÇÃO do esmalte dentário. Tem um ponto bem precoce no tempo, que a erosão e a cárie não tem mais como voltar atrás desta forma.

REFLEXÃO FINAL

Se um produto qualquer prometer recompor o conteúdo mineral nas fases muito iniciais, ainda antes de ser cárie ou erosão precoce, já teremos um benefício muito bom. Nem precisaria sugerir aos pacientes e aos profissionais que o produto faria o esmalte dentário passar por um processo de REGENERAÇÃO ou de REPARAÇÃO, pois isto fere conceitos universais estabelecidos pelas ciências básicas.