Eu sei que estamos no inverno, é claro. Assim, naturalmente os dias devem ser frios. No Brasil, porém, o inverno não é igual em todos os lugares. Nem no mesmo estado temos as mesmas temperaturas. Depende também do humor de São Pedro, pois há anos nos quais o frio só faz uma ligeira aparição durante o inverno. Neste ano de 2026, ao menos aqui na capital paulista, os dias frios já viraram tendência.
Até gosto do frio, mas depois de alguns dias, a gente enjoa. O problema é que o brasileiro raiz, exceto talvez o que mora nos estados do Sul, não tem suporte adequado para o frio. As casas da imensa maioria dos brasileiros não têm aquecimento interno integrado, têm piso frio e chuveiros inadequados. Neste último quesito, inclusive, tenho certeza de que o frio é um queimador de resistências de chuveiros que não dão conta de aquecer e molhar ao mesmo tempo.
Outra coisa que o brasileiro comum não tem é roupa certa para suportar o frio intenso. Daí surgem as “pessoas cebola”, vestidas com mil camadas, tudo na tentativa de parar de tremer. Duas calças, várias meias, uma dúzia de blusas e o vento frio ainda fustiga. Com os sapatos é a mesma coisa, que têm solas finas demais para dias frios e chuvosos. Quem já esteve em um lugar preparado para baixas temperaturas sabe que há modos diferentes de se encarar o inverno e uns são bem melhores do que outros.
Aqui em casa, embora tenhamos aquecedores, não é o mesmo que um aquecimento central. Na maior parte dos dias, há mantas no sofá, no meio das quais sempre tem um gato igualmente fugindo do frio. A propósito, eles são excelentes aquecedores naturais. Não é à toa que muitas pessoas em situação vulnerável, nas ruas, sobrevivem graças ao calor emanado de amigos de quatro patas.
Outra questão importante é que no frio o apetite aumenta. Dá vontade de comer só coisinhas gostosas, como feijoada, pizzas, pães, bolos com café, tudo quente e abundante. Saladas e frutas, das quais gosto muito, acabam sendo traídas por alimentos mais reconfortantes. Os pets não fogem à regra e parecem ter uma fome infinita. Uma de minhas cachorras, a Gigi, termina todo inverno com sobrepeso, o qual desisto de controlar neste período. Assim que o frio se vai, ela e eu buscamos nos preparar para o verão. Sorte dela não precisar usar roupas.
Até os pássaros livres que alimento na minha sacada aparecem em maior número, reclamando, assim que o sol nasce, um café da manhã mais robusto. Nesses meses, pela ausência ou escassez de outras fontes de alimentação para eles, reponho as frutas e sementes mais de uma vez ao dia, para as mais de três dúzias de aves que se tornaram minhas freguesas, entre maritacas, sabiás, bem-te-vis, pombas, rolinhas, sanhaços, azulões, cambacicas e beija-flores. No turno da noite, aparece também uma meia dúzia de morceguinhos. Todo mundo faminto.
E a vontade de dormir que o frio me dá? Se dependesse de mim, hibernaria. Inversamente proporcional, vem a vontade de fazer exercício. Fico tentando me convencer de que subir e descer vinte degraus várias vezes ao dia já me tira da categoria de sedentarismo temporário, aliado a dois passeios diários de dez minutos e quatro quarteirões com as cachorras.
Pelo visto 2026 será um ano com várias temporadas frias, naquele vai e vem que faz a gente nunca perder de vista as cobertas e roupas quentes. Enquanto isso, haja banho rápido e atentado violento ao visual. Vou ali comer alguma coisa e já volto.