28 de julho de 2026
COLUNISTA

Num piscar de olhos, tudo pode mudar

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

Dias atrás o nosso coração ficou pesaroso. Não é o peso de uma notícia ruim passageira - é o peso de quem observa o mundo e percebe que algo mais profundo está acontecendo. O chão que parecia sólido treme. O ar que deveria refrescar abrasa. O amanhã planejado desaparece em segundos. Há uma voz antiga que ecoa nestes tempos: não a voz do pânico, mas a da sobriedade - aquela que nos convida a olhar com coragem e sabedoria para o que está acontecendo ao redor, sem nos anestesiarmos, sem fecharmos os olhos para o sofrimento do mundo como se ele não tivesse nada a nos dizer.

Na Venezuela, a terra tremeu com violência brutal. Dois terremotos sacudiram o norte do país com apenas 39 segundos de diferença - o primeiro de magnitude 7,2, o segundo, ainda mais devastador, de 7,5. Ambos aconteceram a poucos quilômetros da superfície, o que fez o impacto chegar com força total às casas e às pessoas. O número oficial já passa de 235 mortos e 4.300 feridos - mas as autoridades alertam que esse total vai crescer, porque há regiões inteiras que ainda não foram contabilizadas. Um prédio de 22 andares desabou completamente em Caracas, e sob desespero famílias buscam parentes nos escombros. 'Parece o fim do mundo', relatou uma testemunha ao olhar para a rua. Diante de tamanha tragédia, é impossível assistir às cenas e não se emocionar. O impacto desse acontecimento logo irá desaparecer das notícias, mas o sofrimento de quem experimentou a morte de perto ira perdurar por toda a vida.

Enquanto isso a Europa ferve. Na França, uma onda de calor histórica - segundo dados - a noite mais quente registrada desde 1947 - empurrou dezenas de pessoas ao desespero. Para fugir do calor, foram a rios, lagoas e canais sem fiscalização. Mais de 55 pessoas morreram afogadas em poucos dias. Quase 90% do território francês entrou em alerta laranja ou vermelho. Estudos calculam que essa onda de calor teria sido 3,5 graus mais fria há cinquenta anos e que noites extremamente quentes são hoje cem vezes mais prováveis. Não foi somente imprudência que matou essas pessoas - foi desespero.

E o Brasil? Cientistas do INPE, do INMET e da NOAA alertam - com 90% de probabilidade - para a chegada de um Super El Niño no segundo semestre de 2026, possivelmente o mais intenso já registrado. As previsões são sérias: chuvas torrenciais e inundações no Sul, seca severa no Norte e no Nordeste, alimentos mais caros, energia mais cara, crise de abastecimento de água. Jornais já falam em estoque de alimentos e preparação para a escassez de infraestrutura básica. E tudo isso num país que ainda enfrenta crise moral, corrupção endêmica e profunda fragilidade institucional. Não há rede de proteção sólida para quem está embaixo. A pergunta não é se haverá crise, mas se estamos preparados, porque num piscar de olhos tudo pode mudar.

Jesus disse: "Como nos dias de Noé..." - e a comparação é perturbadora não por causa da violência do dilúvio, mas pela normalidade que o precedeu. As pessoas viviam, comemoravam, se distraíam. O mundo seguia em festa até que o inesperado chegou. Estamos em dias de Copa do Mundo e não há nada de errado em assistir e comemorar - mas há algo de perigoso em se anestesiar, em celebrar enquanto o chão treme embaixo dos pés do próximo. A ética cristã não nos pede indiferença ao futebol - pede sensibilidade ao sofrimento. Pede que não confundamos distração com descanso e nem euforia com paz. O conforto pode adormecer a consciência - e uma consciência adormecida é como um membro anestesiado: aparentemente sem dor, mas morrendo lentamente sem que se note

"Buscai ao Senhor enquanto se pode achar; invocai-o enquanto está perto." - Isaías 55.6. Há uma urgência nesse verso diante da fatalidade da vida. Não se lança a âncora da alma no meio da tempestade; isso é feito na calmaria. Oremos pelo povo da Venezuela, pelos europeus e pelo Brasil que caminha para dias temerosos - mas façamos mais do que orar: consagremos a vida, vigilemos em espírito, preparemo-nos com prudência e sabedoria. Porque num piscar de olhos - tudo pode mudar. E quando tudo mudar, o que restará não será o que você acumulou, o lugar onde morou, o que planejou - ou talvez nem mesmo aqueles a quem ama com devoção. Restará apenas Aquele a quem você entregou a sua alma de todo o coração. Que esse alguém seja Cristo: o Autor e Consumador da nossa fé, o único que permanece inabalável quando tudo ao redor treme.