04 de julho de 2026
HISTÓRIAS DA CIDADE

Val de Palmas e sua estação: o complexo que impulsionou Bauru

Por Priscila Medeiros e Alex Gimenez Sanches (historiador) | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Priscila Medeiros
Presidente Getúlio Vargas pernoitou neste Casarão de Val de Palmas

A história do desenvolvimento econômico, social e ferroviário de Bauru também está ligada à Fazenda Val de Palmas e à estação ferroviária construída em suas terras. No auge da economia cafeeira, entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o complexo agrícola desempenhou papel fundamental na transformação da então pequena vila em um polo econômico do interior paulista.

A Fazenda Val de Palmas começou a ser formada em 1892, em uma região conhecida como "Água Parada", muito próxima a então vila de Bauru. Sua criação fez parte da expansão da cultura cafeeira em direção ao oeste paulista.

Oficialmente fundada em 1895 pelo coronel José Ferreira de Figueiredo, que adquiriu a área em troca realizada com João Batista de Araújo Leite, a fazenda chegou a reunir cerca de 12 mil alqueires e alcançou aproximadamente 2,3 milhões de pés de café, e foi considerada, à época, a maior produtora de café do mundo. Sua produção era tão expressiva que impulsionou a necessidade de melhorias na infraestrutura de transporte da região.

Em 1909, foi inaugurada a Estação Val de Palmas, localizada a cerca de 600 metros da sede da fazenda, em áreas doadas por fazendeiros da região, entre eles o próprio José Ferreira de Figueiredo, coronel Gerson França, Alberto Selmo, Pedro Bastos e Henrique Alberto. Integrada à Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a estrutura passou a embarcar milhares de sacas de café com destino ao Porto de Santos, reduzindo significativamente o tempo de transporte dos grãos, que antes eram levados em carros de boi até Agudos.

Inicialmente construída em madeira, a estação foi reconstruída em alvenaria no final da década de 1920, adotando um estilo eclético. Em 2005, o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac) tombou suas fachadas — incluindo paredes, portas e janelas originais de madeira e ferro, adereços em argamassa, varandas, platibandas e as plataformas de embarque e desembarque. Atualmente, o prédio é ocupado por famílias que utilizam o espaço como moradia.

Envolto em dívidas causadas por uma das crises cíclicas do café, o coronel Figueiredo perdeu a fazenda para seus credores por volta de 1913. O grupo Zerrenner Bülow & Cia., proprietário da Companhia Cafeeira de São Paulo e da Cervejaria Antarctica, assumiu a propriedade e a transformou em uma verdadeira vila rural, com centenas de trabalhadores, escola, farmácia, ambulatório, armazém, açougue, igreja, iluminação, energia elétrica e dezenas de moradias.

Em 1928, sob gestão corporativa, a fazenda atingiu seu ápice produtivo, com impressionantes 2.297.000 pés de café plantados. A comunidade interna reunia mais de 307 famílias de colonos distribuídas em 330 moradias, além de 180 trabalhadores diaristas e empregados fixos.

Durante anos, seu peso econômico e político foi tão expressivo que a propriedade chegou a receber o então presidente da República, Getúlio Vargas, durante sua visita às obras da Estação Ferroviária Central, em 1938.

Em 1951, após uma forte geada que comprometeu as plantações de café e algodão, Anton Zerrenner e Adam Ditrik von Bülow dividiram a propriedade em grandes lotes de 400 alqueires. Um deles foi doado para a instalação de uma faculdade de agronomia, mas o Estado acabou implantando no local o Instituto Penal Agrícola e duas penitenciárias. O restante da área foi vendido.

O Codepac também tombou o casarão da fazenda (um sobrado cercado por varandas sustentadas por grandes pilastras e construído segundo o padrão das grandes propriedades cafeeiras paulistas), preservando integralmente o conjunto arquitetônico e estabelecendo um raio de 100 metros como área não edificável, de modo a preservar a paisagem histórica.

Atualmente, do que foi a Fazenda Val de Palmas, apenas o casarão-sede e a casa do caseiro ainda existem, embora permaneçam fechados.

Curiosidades sobre Val de Palmas

Para viabilizar a doação das terras destinadas à ferrovia, foi exigido que a companhia construísse um poço artesiano para uso dos fazendeiros, fornecesse uma porteira com mourões, cercasse toda a extensão da divisa e instalasse duas cancelas trancadas com cadeado para permitir que os proprietários cruzassem a linha com segurança. Além disso, a ferrovia comprometeu-se a devolver aos fazendeiros as terras correspondentes ao antigo traçado da via.

Graças à sua importância, a Val de Palmas foi um dos primeiros locais de Bauru a receber um aparelho telefônico, instalado em 16 de julho de 1901.

Em junho de 1999, a fazenda foi ocupada por cerca de 250 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). De acordo com reportagens da época, o grupo permaneceu na propriedade até 14 de julho daquele ano, quando foi cumprida uma ordem judicial de reintegração de posse. Na saída, os ocupantes teriam ateado fogo em parte da área da fazenda, destruindo o antigo armazém, a farmácia e outras seis casas de colonos.