05 de julho de 2026
TRIBUTOS AO GOVERNO

Bauruense sabe que paga muitos impostos, mas desconhece quais são

da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Estudante aplicando pesquisa no Poupatempo

Todo brasileiro sabe que paga muitos impostos. Essa talvez seja uma das poucas unanimidades nacionais. Mas quando a pergunta "você paga muitos impostos?" é substituída por "quais impostos você pagou este ano?", a convicção não é a mesma.

Uma pesquisa realizada com quase 400 pessoas que passaram pelas unidades do Poupatempo de Bauru e Jaú revela um retrato curioso — e preocupante — da relação dos brasileiros com os tributos. A maioria reconhece que paga impostos, mas demonstra dificuldades para identificar quais são eles, quanto efetivamente paga e de que maneira esses valores são cobrados. Convidados a citar três impostos pagos ao longo do ano, a grande maioria dos entrevistados lembrou instantaneamente do IPVA e do IPTU, seguidos do Imposto de Renda. Isso não é coincidência. São tributos cobrados de forma direta, normalmente por meio de guias de arrecadação ou aplicativos, o que faz com que sua exigência seja muito mais perceptível.

Em contraste, impostos que acompanham o cidadão diariamente, porém embutidos nos preços de produtos e serviços, aparecem com muito menos frequência. O ICMS, por exemplo, foi lembrado por apenas 109 entrevistados (28,1%), enquanto IPVA e IPTU foram citados 184 (47,4%) e 177 (45,6%) vezes, respectivamente.

No entanto, o ICMS representa aproximadamente 21% de toda a carga tributária brasileira, enquanto o IPVA e o IPTU, somados, alcançam pouco mais de 4% da arrecadação nacional.

A pesquisa ainda revelou respostas que demonstram certa confusão entre impostos, contribuições previdenciárias, e mesmo despesas cotidianas como o consumo de água e energia, evidenciando que muitos brasileiros não distinguem exatamente o que é um tributo. Outro paradoxo interessante se refere à disponibilidade e ao interesse pela informação de natureza fiscal. Grande parte dos entrevistados (83,5%) afirma ser capaz de localizar, na nota fiscal, a informação sobre o valor aproximado dos tributos incidentes na operação. Entretanto, a maioria (72,9%) admite que simplesmente não costuma observar esse dado durante suas compras. Em outras palavras, a informação existe, mas passa despercebida.

Essa postura certamente contribui a que tantos brasileiros possuam uma percepção difusa da carga tributária. As pessoas sentem o peso dos impostos, mas desconhecem sua composição. Sabem que o custo de vida é elevado, porém não conseguem identificar quanto desse valor efetivamente corresponde à tributação, ou em quais situações existe a cobrança de impostos.

Para se ter uma ideia, uma em cada dez pessoas entrevistadas respondeu que não era contribuinte de impostos, porque não os pagava diretamente, sem atentar, portanto, que os tributos incidentes sobre o consumo estão incorporados ao preço do combustível, da energia elétrica, do supermercado, do medicamento, da roupa, do celular e da refeição no restaurante.

A desconexão entre a consciência do pagamento e o conhecimento do sistema é especialmente relevante porque os impostos financiam praticamente todas as atividades do Estado, desde hospitais e escolas até segurança pública, infraestrutura e programas sociais. Um contribuinte informado paga pelos tributos, mas de outro lado tem condições de acompanhar a aplicação dos recursos, cobrar transparência e eficiência alocativa, participar do debate público e exercer sua cidadania também de forma consciente.

As perspectivas futuras não são otimistas. Embora a transparência tributária tenha sido alçada à condição de princípio constitucional, a verdade é que falta formação que assegure ao cidadão a capacidade de interpreter as informações disponíveis.

Quando o assunto é a recente reforma da tributação sobre o consumo no Brasil, apesar de representar a maior transformação do sistema tributário brasileiro em décadas, a pesquisa revela que grande parte dos participantes sabe pouco ou absolutamente nada sobre as mudanças que entrarão em vigor de forma gradual nos próximos anos. Entre os que já ouviram falar, mas não sabem explicar, aqueles que não sabem nada a respeito e os que não se interessam pelo assunto, estão 46,4% dos entrevistados.

Mesmo aqueles que afirmam conhecer a reforma, refletem percepções distorcidas, expectativas incompatíveis com o texto aprovado e incertezas sobre seus possíveis efeitos na vida cotidiana.

Esses resultados evidenciam um desafio que vai muito além da legislação tributária. O Brasil ainda possui um longo caminho a percorrer em matéria de educação fiscal. Ensinar o cidadão a compreender os tributos não significa apenas explicar leis ou alíquotas. Significa desenvolver consciência sobre a origem dos recursos públicos, estimular o controle social dos gastos governamentais e fortalecer a cidadania. Não basta saber que os impostos são elevados. É preciso compreender quais são eles, onde incidem, quanto representam no orçamento familiar e qual é sua finalidade.

A pesquisa realizada em Bauru sugere que ainda estamos distantes desse cenário. Os brasileiros percebem que pagam impostos, mas muitos simplesmente não enxergam aqueles que diariamente incidem sobre as relações de consumo, ignoram informações que já estão disponíveis nos documentos fiscais e conhecem muito pouco sobre uma reforma que alterará profundamente a forma de tributação no país. Essa miopia fiscal é mais do que uma questão tributária, é um desafio de cidadania. Afinal, quem não sabe quanto paga, dificilmente conseguirá avaliar se paga de forma justa — e muito menos fiscalizar como esse dinheiro é utilizado. A coordenadora do projeto, professora Luciana Moscardi Grillo, informa que a pesquisa foi concebida e realizada pelos alunos do 4° ano da disciplina de Direito Tributário da Instituição Toledo de Ensino, entre os dias 26 e 29 de maio de 2026, como atividade de extensão universitária, comemorativa da semana nacional de respeito ao contribuinte brasileiro, e que durante a atividade, em parceria com a Escola de Governo do Estado de São Paulo, foram distribuídos materiais e brindes para divulgação de conteúdo de educação fiscal para os mais diversos públicos.