20 de junho de 2026
COLUNISTA

Tem bactérias na polpa dentária

Por Alberto Consolaro | Professor titular da USP e colunista de Ciências do JC
| Tempo de leitura: 3 min
Em um dente decíduo com cárie, as bactérias e pequenos aglomerados puderam ser observados em polpas ainda vitais.

Nos tecidos não temos bactérias. Somos um tubo e a cavidade do estômago e intestino, o interior do pulmão e dentro dos ouvidos, está tudo em contato com o meio externo. O meio interno está isolado do corpo pelo revestimento epitelial da pele e mucosas.

Quando uma bactéria entra no interior dos tecidos, ela vai ser encontrada imediatamente por células fagocitarias leucocitárias, anticorpos e enzimas que as destruirão em segundos ou minutos. Não pode demorar, pois podem encontrar cantos e recantos onde se escondem e proliferam. Seu tempo médio de vida, quando se divide em duas, é 20 minutos.
A inflamação e sistema imunológico tem que estar prontos para que suas células e substâncias eliminem as bactérias prontamente. Este brevíssimo período de tempo com bactérias no sangue se chama “bacteremia transitória”.

Se demorar mais que segundos e poucos minutos por falha na inflamação ou sistema imune, elas podem se fixar e proliferar em locais bem escondidos ou previamente agredidos, o que se chama “anacorese”. Esta falha acontece mais nos diabéticos não controlados, pacientes oncológicos, imunodeprimidos, com distúrbios alimentares, etilistas e etc. A cada 20 minutos, as bactérias dobram o seu número.

É importante reconhecer a eficiência do corpo contra as bacteremias transitórias diariamente, quando penteamos o cabelo, escovamos os dentes, nos alimentamos, colamos braquetes, fazemos limpeza nos dentes, praticando esportes, quando fazemos limpeza de pele, tratamento endodôntico, etc. É tão natural que não valorizamos como deveríamos. Quando tratamos a cárie, também colocamos muitas bactérias no sangue.

FRAGILIDADE

Se não estivermos bem sistemicamente, poderemos ter doenças infecciosas, quase que “inexplicáveis”, como artrite reumatoide, endocardite idiopática, doenças renais crônicas. Ou o organismo pode se surpreender com tantas bactérias que se perde a sincronia e a harmonia entre os sistemas como respiração, batimento cardíaco, função cerebral, hepática e renal e muitas outros.  Esse quadro muito sério se chama “sepse” e pode ser fatal.

Por isto que não devemos deixar bactérias no interior do corpo, mesmo que seja uma pequena carie não removida totalmente, embaixo de uma restauração, ou um canal contaminado parcial ou incompletamente obturado, ou uma doença periodontal crônica assintomática. Em tese na USP em Bauru, de Valéria Lopes Godoy em dentes com cárie na dentina, especialmente em dentes decíduos, observamos bactérias e aglomerados microbianos no interior do canal, mesmo quando a polpa estava viva.

Em um dado momento da vida, podemos detectar que a saúde do paciente é ótima, não importa a idade, mas com o tempo as pessoas adquirem doenças debilitantes e estes locais de contaminação constante e permanente, podem significar a porta de entrada microbiana até para uma sepse. Pode ser até uma perimplantite discreta, enfim não podemos deixar portas de entradas abertas para as bactérias nos dentes.

REFLEXÃO FINAL

Na boca temos bilhões de bactérias e numerosas portas de entrada em potencial. Cuidar da saúde bucal é cuidar do corpo como um todo. Isto vale para os dentes, ossos maxilares, mucosa bucal e orofaringe. Todos os pacientes com comorbidades devem ser tratados de forma especial, com cobertura antibiótica se necessária e cuidados para evitar as consequências das bacteremias transitórias. Durante a higiene bucal induzimos bacteremias transitórias.

Nunca esqueçamos que o paciente saudável de hoje, no tempo, pode ser o portador de uma comorbidade amanhã e o que foi feito na boca hoje. pode ser um complicador do seu quadro clinico sistêmico amanhã, não importa a idade. E nem sempre as pessoas que cuidam de pacientes nos leitos e hospitais, sabem ou lembram de verificar a situação bucal para compreender o seu estado sistêmico. A boca não é a figura central do corpo, mas é a sua porta de entrada!