Há algo profundamente perturbador quando um governo decide esconder informações por cem anos. Não se trata de uma década. Não se trata de uma geração. Trata-se de um século inteiro. Um período tão longo que nenhum dos cidadãos vivos hoje estará aqui para cobrar explicações. Nenhum dos responsáveis estará presente para responder perguntas. Nenhum dos signatários precisará encarar os olhos daqueles que pagaram a conta.
Quando um acordo feito em nome do povo recebe um carimbo de sigilo por cem anos, a suspeita deixa de ser exagero. Ela passa a ser consequência natural. Afinal, qual é a justificativa legítima para ocultar algo por tanto tempo de quem financia, sustenta e legitima o próprio Estado?
Vivemos ouvindo discursos sobre transparência. A palavra é repetida em palanques, entrevistas, campanhas e pronunciamentos oficiais. Transparência virou slogan. Mas slogans não sobrevivem aos fatos. E o fato é simples. Se algo foi realizado em nome da sociedade, a própria sociedade deveria ter o direito de saber o que foi feito, por quem foi feito e quais interesses foram contemplados.
Dizer que o povo não precisa conhecer os detalhes de uma negociação realizada em seu nome é uma afirmação que cheira a malandragem institucionalizada. É o tipo de raciocínio que transforma cidadãos em meros espectadores de decisões que afetam suas vidas. É uma inversão moral perigosa. O verdadeiro dono da informação passa a ser tratado como intruso.
O sigilo de cem anos tem uma característica particularmente cruel. Ele não protege apenas documentos. Ele protege responsabilidades. O tempo age como uma borracha implacável. Apaga memórias, elimina testemunhas, dissolve contextos e enterra culpados. Quando os arquivos forem finalmente abertos, quem responderá pelos atos praticados? Quem estará vivo para justificar decisões, contratos, favorecimentos ou eventuais irregularidades? Talvez ninguém. E talvez seja exatamente essa a intenção.
Porque um segredo guardado por cem anos não é apenas um segredo. É uma aposta na impunidade. É um cálculo frio de que a indignação popular possui prazo de validade. É a confiança de que, quando a verdade surgir, aqueles que deveriam prestar contas já terão desaparecido das páginas da história.
Enquanto isso, resta uma pergunta que deveria incomodar qualquer cidadão que ainda acredita na ideia de democracia. Quanto custou essa brincadeira feita em nosso nome? Quantos perderam? Quantos ganharam? E, sobretudo, quanto levaram para que a luz precisasse ficar apagada por um século inteiro?