10 de julho de 2026
DESEQUILÍBRIO

Bauru acelera empréstimos apesar do risco de colapso fiscal

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Priscila Medeiros
Especialista em Gestão Pública Paulo Tambara

Especialista em gestão municipal, Paulo Tambara alerta para risco de colapso financeiro da Prefeitura de Bauru diante do avanço do déficit atuarial da Funprev, do aumento das despesas obrigatórias e da ampliação do endividamento público. Segundo ele, o município poderá enfrentar, já a partir de 2027, um cenário de inviabilidade orçamentária que comprometerá investimentos, serviços públicos e novos projetos.

“Sou empresário no ramo de Assessoria de Gestão, Processos e Controladoria e uma especialidade em Gestão Municipal, morei por 25 anos fora de Bauru. 2026 voltei a morar em Bauru. E confesso que estou preocupado”.

Tambara afirma que o desequilíbrio fiscal não é uma previsão futura, mas uma realidade que já se arrasta há anos. “Não estamos diante de uma crise que surgiu de repente. Há anos diversos setores da sociedade alertam para o crescimento das despesas permanentes e para a falta de planejamento financeiro de longo prazo. Os sinais estavam claros. O problema é que preferimos adiar as decisões difíceis”, declarou.

De acordo com o especialista, o município entra em 2027 com compromissos assumidos muito acima da capacidade de arrecadação. Entre os maiores desafios estão as obrigações relacionadas à Fundação de Previdência dos Servidores Públicos Municipais Efetivos de Bauru (Funprev), a situação financeira do Departamento de Água e Esgoto outras despesas que continuarão crescendo independentemente da vontade dos próximos governantes.

“Em 2027, o município terá um impacto de aproximadamente R$ 200 milhões apenas com a Funprev. Isso representa cerca de 10% do orçamento municipal. A pergunta é: de onde vai sair esse dinheiro?”, questiona.

Segundo Tambara, a situação se agrava porque a Prefeitura também vem ampliando operações de crédito e assumindo novos empréstimos em meio ao desequilíbrio fiscal. “Além do caos orçamentário, a gestão atual está acelerando nas dívidas públicas. Como os nossos filhos vão pagar essa conta?”, criticou.

O especialista detalha que atualmente cerca de 47% do orçamento municipal já é destinado à folha de pagamento. Outros 43% são consumidos pelo custeio da máquina pública, incluindo manutenção de serviços, contratos e despesas operacionais. Restaria, segundo ele, apenas uma pequena margem para investimentos.

“Se chegar a 50% com gasto de pessoal, o Tribunal de Contas pode determinar intervenção. O município está muito próximo desse limite”, afirmou. Tambara também questiona a viabilidade de grandes projetos anunciados pelo poder público, especialmente na área da saúde. Para ele, a discussão sobre novas obras ignora a incapacidade financeira do município para manter estruturas permanentes.

“Construir um hospital é a parte mais barata. O problema é o custeio, que é perpétuo. Se hoje já não há recursos suficientes, como será possível manter novos equipamentos públicos?”, indagou. Tambara alerta que a situação tende a se agravar a partir dos próximos anos, quando novos compromissos financeiros passarão a pressionar ainda mais o caixa municipal.

“A partir de 2028 começam os pagamentos do financiamento das obras de asfalto, criando uma nova pressão sobre um orçamento que já se mostra insuficiente. Isso significa menos espaço para investimentos, menos capacidade de resposta da administração e mais dificuldades para enfrentar os problemas da cidade. Quando o orçamento é consumido por compromissos do passado, quem paga a conta é a população”, afirmou.

Segundo o especialista, os reflexos desse cenário já podem ser sentidos pela população e tendem a se intensificar caso não haja mudanças na gestão das contas públicas. “Pagamos com filas na saúde, infraestrutura deteriorada, dificuldades na educação, perda de competitividade econômica e redução da capacidade de atrair investimentos e gerar empregos.”

Tambara também avalia que Bauru vem perdendo protagonismo regional diante do avanço de municípios vizinhos. “Enquanto outras cidades avançam, atraem empresas, ampliam sua arrecadação e fortalecem sua representação política, nós continuamos discutindo problemas que deveriam ter sido enfrentados anos atrás.”

Apesar das críticas, ele acredita que ainda há tempo para reverter o quadro. “Mas isso exige coragem para reconhecer a realidade, transparência para apresentar os números e liderança para construir soluções duradouras. O futuro de Bauru não será definido pelos discursos que fazemos hoje, mas pelas decisões que tivermos coragem de tomar agora.”

Ao encerrar sua análise, Tambara fez um apelo para que a cidade volte a planejar seu desenvolvimento de forma estratégica. “Quem ama esta cidade não pode se conformar com sua decadência. Bauru precisa voltar a planejar, voltar a liderar e voltar a acreditar no seu próprio potencial.”

Procurada pela reportagem para comentar as afirmações de Paulo Tambara, a Prefeitura de Bauru informou, por meio de nota que "Não há qualquer indicativo técnico de colapso financeiro da Prefeitura de Bauru. O Município mantém acompanhamento permanente de suas receitas, despesas e obrigações previdenciárias, adotando medidas de responsabilidade fiscal para garantir a continuidade dos serviços públicos e o equilíbrio das contas municipais".

"O impacto projetado da FUNPREV para os próximos anos decorre das obrigações previdenciárias dos servidores efetivos concursados vinculados ao regime próprio de previdência. Trata-se de um desafio enfrentado por diversos municípios brasileiros e que vem sendo acompanhado e tratado pela Administração Municipal com responsabilidade e planejamento de longo prazo" concluiu a nota.