13 de junho de 2026
OPINIÃO

O futebol em um mundo conflagrado

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

Pela primeira vez 48 seleções disputam a Copa do Mundo de Futebol em formato expandido, distribuído em três países sedes, Estados Unidos, México e Canadá. São 1.248 jogadores, 104 partidas a disputar em 39 dias. Pena que em um mundo tensionado nem sempre o esporte consiga unir povos e nações. Estamos longe do exemplo da Grécia Antiga, onde as guerras eram suspensas durante a realização dos Jogos Olímpicos. Durante a Primeira Guerra Mundial, num campo de batalha na Bélgica, soldados britânicos e alemães fizeram uma Trégua de Natal para jogarem uma partida de futebol na "terra de ninguém", onde entoaram canções e trocaram botões da farda, o presente possível nas trincheiras.

Neste evento Fifa, a Rússia está sob sanção em razão da guerra contra a Ucrânia. A seleção do Irã entra em campo em meio a uma relação de hostilidades com os EUA. Os persas são obrigados a se concentrarem em Tijuana, no México, para jogar em sua sede em Los Angeles, e depois voltar logo que cumprida a tabela. A cota de ingressos a que seus torcedores têm direito foi diminuída por questão de "segurança". O mesmo motivo foi alegado para barrar o árbitro do Sudão designado pela Fifa e com visto regular. Deportado, foi recebido como herói no seu país.

Fala-se em integração continental mediada pelo esporte, mas o presidente Donald Trump mandou aumentar o efetivo da Polícia de Imigração e continua construindo uma muralha de aço, de concreto e barreiras eletrônicas na fronteira com o México. Esse mesmo governo insinua uma eventual anexação do Canadá como 51º Estado americano. No Caribe, bloqueia Cuba. Invadiu, sequestrou o presidente e declara-se tutor do petróleo venezuelano. Como reconhecimento pela sua "política libertadora", o presidente Gianni Infantino criou e outorgou a Trump o Prêmio Fifa da Paz, entregue durante o sorteio das chaves.

Mesmo com essa sabujice do presidente da Fifa, ainda é possível esperar que depois da Copa tenhamos um mundo melhor. Quem sabe a diversidade cultural e religiosa reunida para os jogos, funcione melhor que a política belicosa. Nunca tantos países muçulmanos participaram: Marrocos, Uzbequistão, Senegal, Jordânia, Argélia, Iraque. O Congo volta a disputar, mesmo às voltas com o Ebola e os perrengues deste país e de outros, vividos na imigração americana. Deprimentes as cenas de cães farejando bagagens e revistas eletrônicas na pista do aeroporto de Newark. Desta vez temos países nunca cogitados para uma competição dessa importância, como Cabo Verde, Haiti, Bósnia Herzegovina.

Antes de cada jogo, o protocolo da Fifa manda que as equipes se perfilem no círculo do meio-campo como numa ciranda em torno de um contexto mundial. Tem algo de Nelson Rodrigues. Ele dizia que "Em futebol, o pior cego é aquele que só vê a bola".

Nesta Copa despendem-se grandes craques que terão seus nomes para sempre lembrados na história do futebol: Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Luka Modric, Manuel Noier e Neymar.

Considerado um dos maiores treinadores de futebol de todos os tempos, o italiano Arrigo Sacchi soube resumir: "O futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes da vida". Sacchi foi treinador de Carlo Ancelotti no Milan. Quando deixou de jogar, Ancelotti aceitou ser auxiliar técnico de Sacchi. Foi quando a Itália perdeu a final da Copa para o Brasil em 1994, graças as defesas de Taffarel e o pênalti perdido por Roberto Baggio.

Quem sabe esta Copa se transforme num encontro de desencontrados. Que prevaleça o espírito do fair play em favor do respeito entre nações. Esse compromisso não é só do futebol, mas de todo esporte. Está na hora de recuperar nossa posição entre os favoritos. Algo que nos faça esquecer a traumática goleada de 7 a 1 da Alemanha. O trágico Maracanazo de 1950, se não foi esquecido, pelo menos perdeu seu estigma como tragédia depois dos quatro títulos conquistados por novas gerações. Boa sorte, Brasil.