É possível que problemas dentários possam ter relação com a queda de cabelos focais no corpo? Sim, é possível. Enquanto embrião e feto, recebemos aminoácidos, íons e outros componentes da mãe, via placenta, para a formação das proteínas, o principal componente dos tecidos.
Simultaneamente, o ser em formação desenvolve o mecanismo de criar uma memória bioquímica de todas as proteínas que está recebendo e incorporando nas estruturas. Este registro conhecido como memória imunológica, cataloga as proteínas que entrou em nossa composição e se fecha ao nascimento.
Depois do nascimento, qualquer proteína desde microrganismos até transplantes, que entrar nos tecidos passará por um processo de reconhecimento por esta memória para saber se é própria ou não. Se for reconhecida como proteína própria, circulará livremente pelo organismo. Quem faz este reconhecimento são os macrófagos e linfócitos, células fundamentais para o sistema imunológico.
Se a proteína que entrou for reconhecida como estranha, recebe o nome de antígeno e desencadeia uma mobilização das células imunológicas para que seja de alguma forma destruída ou eliminada. Este conjunto de reações com esta finalidade é a resposta imunológica.
AUTOIMUNIDADE
Autoimunidade ocorre quando o sistema imunológico reconhece algum de nossos componentes proteicos como estranho, sendo que na verdade ele não é estranho. O sistema imunológico pode estar com defeito ou a proteína própria se modificou por alguma razão. Mas, as vezes, a autoimunidade pode ser pelo que se chama de reação cruzada.
Na reação cruzada, entra no organismo algum tipo de bactéria, que por coincidência e azar, tem proteína em sua membrana externa muito parecida com as proteínas presentes em alguma parte do corpo, tal como nas células do folículo piloso.
Assim, as células imunológicas irão atuar contra estas bactérias, mas também contra as células do folículo piloso, levando a parada de produção e renovação dos pelos, com perdas localizadas que recebe o nome de alopecia areata. Isto poderá ocorrer enquanto estas bactérias insistirem em entrar nos tecidos.
Entre os pontos de entrada destas bactérias, temos processos inflamatórios crônicos localizados no periápice dos dentes induzidos pela necrose pulpar por bactérias da cárie. Mas, podemos ter focos infecciosos nas tonsilas, ouvidos, unhas, genitálias, etc.
PROCURANDO
Em paciente com alopecia areata, muitos dermatologistas pedem exames clínicos e imaginológicos do profissional da odontologia para descobrir focos infeciosos dentários que serão eliminados por tratamento endodôntico ou exodontia.
Depois de algumas semanas, pode se observar a volta dos pelos nas áreas alopéticas, pois o sistema imunológico não irá mais destruir as células dos folículos pilosos por reação cruzada, pois as bactérias do foco infeccioso não atuam mais. O foco infeccioso pode ser também a periodontite, pericoronarite, fratura radicular infectada, abscesso dentoalveolar crônico com fístula, etc.
Deve-se ressaltar que este foco infeccioso pode ser a causa direta da alopecia areata, mas também pode não ser, e seu tratamento não melhora e nem regride as áreas alopéticas, o que pode estar associada a outras causas, como o estresse psicossomático.
REFLEXÃO FINAL
A autoimunidade por reação cruzada com alguma bactéria, pode também explicar outras manifestações clinicas como problemas renais, oftalmológicos, artrites crônicas, etc.
Quando solicitado para fazer um laudo por escrito após o exame clinico a ser apresentado ao dermatologista ou reumatologista solicitante, é fundamental incluir um minucioso exame imaginológico, incluindo a tomografia. A boca nunca deve ser pensada isoladamente, especialmente nas avaliações clinicas médico-odontológicas.