07 de junho de 2026
COLUNISTA

A arte de chorar o luto com esperança

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

Há uma conversa que ninguém ensina a ter. Ela acontece no silêncio do quarto vazio, diante da cadeira que não será mais ocupada, ou na madrugada em que o peso da ausência parece mais pesado do que qualquer palavra pode suportar. É a conversa com a dor. E é justamente aí - nesse território que a maioria de nós evita nomear - que a Bíblia nos surpreende com uma linguagem precisa, rica e profundamente humana: o lamento. Este artigo pode encontrá-lo em um desses momentos. Talvez você tenha perdido alguém recentemente. Talvez a dor seja antiga, mas insiste em reaparecer - como acontece com tantas pessoas que amaram profundamente e não sabem o que fazer com o vazio que resta. Antes de qualquer argumento teológico, quero dizer: Sinto muito! O cemitério não é lugar de palestras. É lugar de lágrimas. Mas ainda assim precisamos conversar:

Existe uma confusão comum sobre o que significa lamentar. Na cultura popular, luto é frequentemente retratado como colapso - a perda do controle, o grito sem forma, o punho na parede. É como se a única maneira legítima de demonstrar dor fosse a desordem total das emoções. Como se sofrer corretamente exigisse sofrer sem freios.

Mas o lamento bíblico ensina outra coisa. Ele não é desenfreado - é articulado. Os Salmos de lamentação, o livro de Lamentações, os clamores de Jeremias: todos esses textos revelam uma dor que foi processada com esperança. Não são explosões caóticas. São orações cuidadosamente construídas por pessoas que sofreram o luto e ainda assim encontraram palavras para levar sua dor diante de Deus.

O apóstolo Paulo, escrevendo aos tessalonicenses, traça um limite fundamental: "Para que não vos entristeçais como os demais, que não têm esperança" (1 Ts 4.13). Ele não proíbe o pranto. Ele redefine o pranto. Há uma diferença entre chorar sem horizonte e chorar com direção. A dor pode ser real e legítima sem ser desesperada. O lamento bíblico é exatamente isso: A tristeza da separação que conhece o endereço para onde está indo - o choro com esperança. Certamente essa é uma afirmação que pode soar estranha aos ouvidos céticos.

É claro que somos criaturas emocionais - sentir é parte essencial de ser humano. Uma pessoa sem emoções é uma anomalia. Paulo instrui os romanos a "alegrarem-se com os que se alegram e chorarem com os que choram" (Rm 12.15) - mas esse é um conselho que só faz sentido se as emoções puderem ser calibradas, direcionadas, corrigidas. O lamento bíblico, portanto, não é simplesmente a liberação do que sentimos. É a expressão ordenada do que é verdadeiramente triste, dirigida a Deus, fundamentada na esperança que ele mesmo prometeu. Talvez nenhuma passagem ilumina melhor o lamento cristão do que a ressurreição de Lázaro em João 11. O que chama atenção não é apenas o milagre - é onde Jesus chora. Ele não chora quando recebe a notícia da morte do amigo. Não chora na sala com a família enlutada. Ele chora diante do túmulo. O texto grego revela algo ainda mais profundo. As palavras traduzidas como "profundamente comovido" (v. 33 e 38) carregam uma nuance de indignação intensa, de dor contida. As lágrimas de Jesus não eram de desespero - eram a expressão precisa e controlada de uma tristeza santa contra a realidade humana da morte. Então ele agiu. A ressurreição de Lázaro não é um prodígio isolado - é uma declaração de guerra. É o vencedor da morte anunciando, com um único comando, o que faria de forma definitiva na cruz e na ressurreição. O lamento de Jesus no túmulo é o prefácio da vitória. Chorar com esperança não é fraqueza - é fé que ainda sente o peso da batalha enquanto já conhece o resultado.

Choramos Agora - Dançaremos Depois: O reino de Jesus foi inaugurado, mas ainda não foi consumado. Vivemos nesse intervalo - entre a vitória já conquistada e a restauração ainda por vir. Nesse espaço, as lágrimas são legítimas. O luto é real. A dor não precisa ser negada, suprimida ou disfarçada de fé. Mas o lamento bíblico é o dom que Deus nos deu para atravessar esse intervalo com integridade. Não é resignação. Não é desespero. É a linguagem de quem sofre de verdade e ainda assim sabe - com certeza sobrenatural - que a última palavra não pertence à morte. Choramos no cemitério agora, tão certos quanto dançaremos na ressurreição. Mas cada coisa em seu tempo: o choro antes do riso, o sepulcro antes da ressurreição. E entre os dois - a mão de um Deus que não foge das nossas lágrimas, mas as conta uma a uma.