O rápido processo de envelhecimento da população não é o único desafio para a estrutura urbana ofertada nas cidades brasileiras. Em Bauru, o abandono às ruas e a falta de vínculos com a família já pressionam os serviços de saúde e assistência social. Em reunião para discutir a longa permanência em fila de espera por exames especializados e cirurgias na Divisão Regional de Saúde (DRS-6), na semana passada, foi abordado o aumento dos casos de pessoas a partir dos 60 anos sem amparo ou acompanhamento familiar.
No encontro que reuniu gestoras de programas de saúde da família e unidades básicas da região Noroeste da cidade e o vereador Natalino da Pousada (PDT) com a diretora regional da DRS-6, Fabíola Soares, esta elencou que 42 pacientes estavam registrados como liberados (alta social), mas sem ter para onde ir, na rede pública comandada pelo Estado em Bauru. Na véspera do feriado de Corpus Christi, somente o Hospital Manoel de Abreu ainda contava com 24 pacientes liberados pelos médicos, mas permanecendo ocupando leitos na unidade. Desses, 16 têm a partir de 60 anos.
Para a gestão de saúde, os registros de permanência de pessoas com alta social mantém a predominância de idosos em até 70% dos casos. Para além de já ter sido apresentado o problema da ocupação e superlotação ao Ministério Público Regional da Saúde, ainda em 2025, pelo vereador Júnior Lokadora, através de representação, chama atenção a avaliação do quadro sob o ponto de vista das coordenadorias do sistema de saúde.
Fabíola Soares descreveu o desafio em duas direções. "São pessoas que entram na rede de saúde e, de acordo com o diagnóstico, vão para o tratamento especializado já sem acompanhamento familiar. Da semana são 42 casos de pacientes com alta social, que vão para um leito, recebem banho, dormem, se alimentam e permanecem ocupando vaga da área de complexidade porque não consigo liberar das unidades. Eles passam pela rede mas não tem retaguarda em casa. A maioria é morador em situação de rua, pessoa que não pode contar com suporte familiar em razão de sua situação social ou perdeu mesmo o convívio e ai nem tem para onde ir", abordou.
Em outra agenda recente, com a Promotoria Pública, a direção de saúde regional abordou o aumento de casos já na fase de "ausência completa de vínculo". Ou seja, se os últimos censos etários têm confirmado a queda no número de filhos, a realidade social traz o agravamento das condições humanas nas cidades e a perda de laços familiares.
SEM RETAGUARDA
Se uma frente envolve a falta de vínculo familiar, a segunda é falta de retaguarda. Pessoas que até contam com parentes, mas eles não têm como deixar de trabalhar para ficar em um hospital durante o tratamento. De outro lado, as coordenadoras de programas de saúde da família da região Noroeste e a gestora municipal de serviços na saúde, Lucilla Bacci, assim como a própria DRS-6 relataram ao vereador Natalino que as faltas a consultas e cirurgias agendadas estão entre 20% a 30%. Boa parte do absenteísmo ocorre porque quando há vínculo familiar, o paciente não tem ninguém da família que possa acompanha-lo no tratamento.
São muitos os casos onde o (a) filho (a) ou outro parente não tem condições de deixar seu trabalho para acompanhar a paciente. Uma diarista, por exemplo, obteve no mês passado decisão judicial favorável a internação imediata de sua mãe, após exames especializados apontarem caso grave de osteoporose. A filha pediu, desesperada, para que se esperasse vaga em Bauru para cumprir a decisão. Havia disponibilidade na Central de Vagas em Botucatu.
COMUPI
O Conselho Municipal do Idoso (Comupi) está em estado de alerta, segundo sua presidente Cidinha Habkost. "Participei da audiência pública (no mês passado) na Câmara onde o objetivo era discutir o agravamento dessa situação. As filas por exames e cirurgias têm o tempo de espera cada vez maior e ainda temos esse problema de aumento das pessoas sem condições de deixar o leito hospitalar após a alta porque não têm com quem contar, ou para onde ir. O que estamos vivendo é uma situação gravíssima. E é preciso que todas as instâncias se sentem e entendam que isso vai piorar se nada for feito", aborda Habkost.
Para a presidente do Comupi, o quadro exige ação intersetorial. "O Comupi tem de contar com o Conselho de Saúde, o Conselho da Mulher, dos Direitos Humanos, da Assistência Social, OAB, órgãos gestores, Comissões do Legislativo, porque a saída para esta situação grave não será encontrada se as ações permanecerem sem a integração. Porque não é um problema em um único ponto. Precisa de uma força-tarefa, todos se sentarem para reavaliar onde estão os maiores problemas e fazer um plano. Fiquei muito desapontada com a audiência porque as falas se espalharam para outros focos. Sem uma ação sistêmica esse caso vai piorar. As cidades terão cada vez mais idosos e não dá para esperar", complementa.
O subfinanciamento público de programas para idosos também será tema de um dos três eixos da 3. Conferência Municipal de Saúde, neste mês, conforme a coordenadora do Conselho Municipal de Saúde em Bauru, Fátima Ferre.
CENSO
Conforme o censo do IBGE de 2022, Bauru contava com 12,6% de sua população com idade a partir de 65 anos, ou 47.698 pessoas. De outro lado, o índice de envelhecimento desse grupo na cidade é maior do que o Estado, com 72,3% de crescimento nesse recorte em Bauru contra 66,3% em todo território paulista. Mas a Fundação Seade acaba de atualizar uma de suas pesquisas em relação ao avanço do envelhecimento apontando o Oeste Paulista como a região onde esse contingente avança mais. Segundo a fundação, 91 cidades do Oeste já tinham número de idosos superior ao de jovens.
No País a tendência é a mesma, com maior ou menor avanço.Conforme os resultados do Censo Demográfico 2022, o número de pessoas com 65 anos ou mais de idade cresceu 57,4% na população do país em 12 anos. O total de pessoas dessa faixa etária chegou a cerca de 22,2 milhões de habitantes (10,9%) em 2022 contra 14 milhões (7,4%) em 2010.
Considerando 60 anos ou mais, segundo dados do IBGE (2022), Bauru contava com 68.235 pessoas. A despeito da evolução desse grupo, a cidade, ainda conta, por exemplo, com menos de 5% de seu esgoto doméstico tratado - item que interfere, no tempo, de forma negativa nos indicadores de saúde nas cidades.
A transição demográfica brasileira também apresenta características peculiares e revela grandes desigualdades sociais durante o processo de envelhecimento. Já o perfil epidemiológico da população idosa é caracterizado pela tripla carga de doenças: predomínio das condições crônicas, prevalência de elevada mortalidade e morbidade por condições agudas decorrentes de causas externas e agudizações de condições crônicas.