03 de junho de 2026
OPINIÃO

Muitos falam em ecossistema, mas poucos operam de fato como um

Por Rafael Silva | Diretor de Marketing e Expansão na Lecom Tecnologia, com mais de 20 anos de experiência no mercado de tecnologia
| Tempo de leitura: 3 min

Ecossistema é a palavra da moda. Sempre aparece em eventos, apresentações e estratégias de inovação. Mas pouca gente opera como ecossistema de verdade.
 
Isso acontece porque ecossistema não é uma plataforma isolada, nem uma lista de parceiros, tampouco um conjunto de integrações técnicas. Ecossistema é quando diferentes empresas, competências, tecnologias e agentes conseguem atuar de forma coordenada para gerar valor juntos.
 
É uma lógica complexa e conjunta. Envolve colaboração, governança, troca de dados, complementaridade de capacidades, modelos de parceria, canais, implementação, suporte e construção conjunta de valor para o cliente.
 
Por isso, o tema deixou de ser apenas conceitual e passou a ser estratégico. A PwC projeta que, até 2030, cerca de dois terços da atividade econômica global devem acontecer dentro de ecossistemas de negócios. Além disso, os principais fóruns globais de negócios ajudam a mostrar como essa agenda ganhou centralidade, a exemplo do SXSW, que reforçou o debate sobre plataformas distribuídas, IA e colaboração em rede como base da nova economia. Ao mesmo tempo, o Gartner mostra que apenas 48% das iniciativas digitais atingem ou superam plenamente suas metas de negócio. 
 
O principal erro está em tratar ecossistema como discurso de inovação, e não como estrutura real de entrega.
 
Operar como ecossistema exige muito mais do que conexão técnica. Exige alinhamento entre empresas, clareza de papéis, confiança, governança, fluxos bem definidos e capacidade de coordenar diferentes participantes em torno de uma jornada comum. É isso que faz uma rede funcionar como ecossistema, e não apenas coexistir como um conjunto de partes desconectadas.
 
O crescimento da IA torna o desafio de coordenar ecossistemas ainda mais complexo.
 
Quanto mais avançam os modelos, a automação e os agentes de IA, mais as empresas passam a depender umas das outras: provedores de nuvem, parceiros de implementação, especialistas de negócio, áreas internas, canais e diferentes sistemas. Nesse cenário, a vantagem competitiva não está apenas em ter acesso à tecnologia, mas em conseguir articular os diferentes elementos que tornam essa tecnologia útil no mundo real.
 
É aí que muita empresa trava. Defende um discurso de ecossistema, mas continua operando de forma fragmentada. Fala em colaboração, mas mantém processos isolados. Investe em tecnologia, mas não organiza a relação entre áreas, parceiros e jornadas. No fim, o ecossistema existe no discurso, mas não na operação.

O que sustenta um ecossistema na prática

Sistemas e soluções complementares são habilitadores importantes, mas ecossistema é, acima de tudo, a capacidade de conectar tecnologias, parceiros, clientes e processos em torno de fluxos de valor que funcionem de ponta a ponta.
 
Isso passa por fortalecer continuamente as tecnologias, aprofundar relacionamentos entre parceiros e construir entregas cada vez mais conjuntas. Também passa por reconhecer que ninguém sustenta transformação sozinho. Em um mercado cada vez mais conectado, gerar valor exige somar competências, articular diferentes especialidades e criar condições para que múltiplos agentes operem de forma coordenada.
 
Ou seja, os ecossistemas não se resumem à estrutura. Eles também exigem evolução constante. Trabalhar em rede significa aprender o tempo todo: com os parceiros, clientes, fluxos que funcionam, novas oportunidades e desafios que surgem à medida que a tecnologia avança.
 
Ecossistema é essa capacidade de aprender, ajustar e construir junto. E isso separa quem apenas fala de quem realmente consegue operar como um verdadeiro ecossistema.