30 de maio de 2026
OPINIÃO

Descompassos

Por Claudia Zogheib | A autora é psicanalista, especialista pela USP, e Psicóloga Clínica formada pela USC, responsável pelas páginas @zogheibclaudia, @cinemaeartenodiva, @auguri_humanamente, @livros.no.diva
| Tempo de leitura: 2 min

A indústria social, aquela do apego às correntes do ter que ser amigo daquele e esconder que é amigo do outro é um destempero hipócrita para manter quem e o que mesmo?

Ressurge no meio de tudo num desejo genuíno que podemos dispor se, acordados para os verdadeiros valores da vida, construímos o que queremos para além dos mantras de ter que se enquadrar para ser aceito. Por quem mesmo? Com qual objetivo?

Quem somos se, além de ter que construir uma vida de trabalho, patrimônio, família, ainda temos que seguir guetos sociais prescritos por uma sociedade falida que precisa de aprovação para se manter e ser aceita, mas que esquece de se intitular morta.

Para onde iremos se, apegados a tantas frugalidades da vida social, apertamos a tarraxa de um moralismo discreto como Charles Chaplin fez no clássico filme “Tempos Modernos”.

Foi em 1936 que este filme nos serviu de alerta para as consequências desumanas diante de uma mecanização excessiva e alienante que nasceu para perdermos a individualidade que estava a serviço de uma engrenagem que configura o seu próprio fracasso e que nos colocou todos no mesmo caldeirão – dominantes e dominados.

Numa sociedade que se encontra neste entrave, se não nos diferenciamos por posições que nascem de uma escuta atenta e individual, continuamos a apertar os parafusos a serviço de algum interesse, independente da classe social que frequentamos.

Freud em “O Mal-Estar na Civilização”, 1930, argumentou que a felicidade plena é inatingível porque a sociedade exige a renúncia e a repressão dos nossos instintos mais primitivos. Mas de fato, precisamos entender o que reprimimos e o que está a serviço de quem e de quais interesses, claro, entendendo que em Freud, a sexualidade tem um sentido muito mais amplo que vai além do ato sexual, e engloba toda busca de prazer, estando presente desde o nascimento e moldando toda a nossa relação com o mundo.

Este não é um texto social, mas me serve de alerta para um descuido em nossa sociedade, vez por outra delirante em arranjos fugazes que de maneira geral, está cheia de regras para cumprir e que nem sabe do que gosta, mas aprendeu desde cedo o que tem que cumprir para ser aceita no grupo. E precisa disto para continuar respirando. Cansativo tudo isto, são os conluios da sociedade, sociais e emergentes da atualidade.

Música “Sexual Healing” – Studio Rio Version – Official Audio, com Marvin Gaye, Studio Rio.