29 de maio de 2026
OPINIÃO

O Sinal da China e a Resposta Agroenergética do Brasil

Por Arnaldo Jardim | Vice-presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária)
| Tempo de leitura: 4 min

Há algum tempo insisto em um ponto que considero central: o Brasil não pode crescer de costas para o mundo. O agronegócio brasileiro é uma potência construída com ciência tropical, trabalho e ousadia — mas não podemos ignorar os sinais que vêm do nosso maior parceiro comercial. A China acaba de publicar seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030) e, pela primeira vez, a agricultura deixa de ser tratada como problema econômico-social para se tornar questão de segurança nacional e existencial do Estado chinês. A meta de produzir 725 milhões de toneladas de grãos ao ano — mais que o dobro da safra brasileira — é um recado claro: Pequim quer reduzir sua dependência externa. Aposta-se em biologia sintética, proteínas alternativas e tecnologias que, em tese, poderiam reduzir em 25% as importações de soja até 2030.

Sou cético com números tão exatos — sistemas agroalimentares não se transformam na velocidade de semicondutores. E a realidade é que, enquanto o potencial da oferta agrícola brasileira é imenso, o da China é limitado por escassez de terras férteis e restrições severas de água. A China continuará sendo o maior importador mundial de commodities por muito tempo, e o Brasil, seu fornecedor mais competitivo e confiável.

Mas o plano chinês é um alerta estratégico. O Brasil precisa diversificar mercados e agregar valor ao que produz. E, para isso, não basta olhar apenas para fora: é preciso resolver nossas próprias vulnerabilidades internas, e a principal delas atende pelo nome de fertilizantes. Em 2025, o Brasil importou 88% de todos os fertilizantes que consumiu — um recorde histórico de 45,5 milhões de toneladas, que nos custou cerca de US$ 25 bilhões. O dado mais alarmante, porém, é que quase metade desses adubos veio de países com alta propensão à instabilidade política ou em guerra, como Rússia, Bielorrússia, Irã e Nigéria. Qualquer choque geopolítico — como vimos nas crises da Ucrânia e do Oriente Médio — dispara os preços e expõe a fragilidade da nossa cadeia de suprimentos. Somos a maior potência agrícola tropical do planeta, mas dependemos do exterior para nutrir o nosso próprio solo.

Foi exatamente para enfrentar essa contradição que, como relator do Projeto de Lei 2.780/2024 — que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos —, tomei uma decisão que considero histórica: incluir os fertilizantes no rol dos minerais estratégicos para o país. Meu parecer, apresentado em maio de 2026, equipara fosfatados, potássio e nitrogenados aos minerais tradicionalmente associados à transição energética, como lítio, níquel e cobalto. Na prática, isso significa que projetos de produção nacional de fertilizantes passarão a ter acesso aos mesmos incentivos fiscais, linhas de crédito especiais e prioridade no licenciamento ambiental que já estavam previstos para os minerais críticos.

A lógica é simples: se o fertilizante é insumo indispensável à segurança alimentar, ele é, por definição, um mineral estratégico para a segurança nacional. Não podemos aceitar que o produto importado entre no mercado brasileiro com carga tributária reduzida enquanto a produção nacional é penalizada com tributos que a tornam menos competitiva. O fertilizante mais caro não é o nacional nem o importado — é aquele que falta no momento do plantio.

Essa medida se soma a iniciativas como o Profert — Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes —, que defendo com convicção. O Brasil possui reservas colossais de potássio e fosfato ainda subexploradas, e temos capacidade tecnológica para desenvolver uma indústria nacional robusta, gerando empregos qualificados e reduzindo nossa vulnerabilidade externa. Não se trata de buscar autossuficiência total — sei que não voltaremos a ter 80% de suprimento nacional —, mas de combinar produção doméstica com importação de forma equilibrada, para que o agro brasileiro não fique refém de tensões geopolíticas alheias.

É aqui que as agendas se encontram. Como coordenador da Coalizão pelos Biocombustíveis e relator da Lei do Combustível do Futuro, vejo na agroenergia o caminho mais curto para reduzir nossa dependência de combustíveis fósseis e ampliar o protagonismo global do Brasil. Na safra 2024/2025, o país produziu 47,1 bilhões de litros de biocombustíveis — 37,3 bilhões de etanol e 9,8 bilhões de biodiesel — um marco histórico que comprova nossa capacidade de escala. A Lei do Combustível do Futuro já viabiliza R$ 260 bilhões em investimentos, ampliando a mistura do etanol para até 35% e do biodiesel para até 25%, além de abrir novas fronteiras como o biometano — que pode substituir até 70% do diesel fóssil consumido no país — e o bioquerosene de aviação, com potencial estimado em 12 bilhões de litros anuais.

O 15º Plano Quinquenal chinês não me tira o sono — mas me mantém alerta. O Brasil tem terra, água, tecnologia e gente preparada. Se soubermos unir a pujança do agro com a revolução da bioenergia, e ao mesmo tempo garantirmos soberania na base de tudo — os fertilizantes que nutrem o nosso chão —, não seremos apenas o celeiro do mundo: seremos a maior potência agroenergética do planeta, com autonomia, resiliência e protagonismo.