27 de maio de 2026
AUDIÊNCIA PÚBLICA

Bolsa de preceptoria expõe disputa e afasta residentes na saúde

Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Câmara Bauru
Vereador Junior Rodrigues comandou audiência

Uma audiência pública realizada nesta terça-feira (26), na Câmara Municipal de Bauru, escancarou um problema que, nos bastidores da saúde pública local, já vinha produzindo efeitos concretos: a dificuldade de inserção dos residentes da Faculdade de Medicina de Bauru da USP (FMBRU-USP) na rede municipal por conta de disputas em torno do pagamento das chamadas “bolsas de preceptoria” e de um ambiente considerado hostil dentro de unidades de saúde da cidade.

O encontro, convocado pelo vereador Junior Rodrigues (PSD), trouxe relatos duros de professores, estudantes e representantes da universidade sobre o que classificaram como uma distorção no modelo criado pelo município para regulamentar a atuação dos médicos supervisores dos programas de residência. Na prática, o debate revelou um cenário em que interesses financeiros e corporativos podem estar prevalecendo sobre a necessidade de fortalecer o atendimento público e ampliar a formação médica em Bauru.

Segundo o diretor da Faculdade de Medicina da USP em Bauru, José Sebastião dos Santos, o modelo instituído permite que a instituição de ensino pague diretamente bolsas aos médicos preceptores. O problema, conforme apontado durante a audiência, é que isso abriu margem para negociações individuais e interesses privados dentro da estrutura pública de saúde. “Estamos vendo nosso sistema de saúde sendo transformado em um negócio na nossa cara”, afirmou o vereador Junior Rodrigues, em uma das falas mais contundentes da audiência.

A crítica ganhou ainda mais peso diante dos relatos de intimidação sofrida por residentes da USP dentro de unidades de saúde municipais. Estudantes presentes no plenário corroboraram as denúncias feitas pela direção da faculdade, indicando dificuldades de acolhimento e resistência à presença dos residentes em unidades básicas de Saúde e UPAs da cidade. O resultado, segundo representantes da USP, é que a instituição tem ampliado convênios com municípios vizinhos como Agudos, Jaú, Avaré e Matão — justamente porque encontra nessas cidades um ambiente mais receptivo para a formação médica.

A consequência prática é um paradoxo: Bauru abriga uma faculdade pública de medicina ligada à Universidade de São Paulo, mas pode acabar perdendo parte importante da atuação de seus residentes para cidades da região. “Viemos para Bauru para formar médicos, mas também ser agentes transformadores”, afirmou o professor Cristiano Tonello, ao defender maior integração entre universidade e rede pública municipal.

O caso de Agudos foi citado durante a audiência como um modelo considerado mais equilibrado. Lá, segundo a direção da faculdade, os recursos destinados às bolsas são repassados diretamente ao município, que faz a gestão dos pagamentos por meio da Secretaria Municipal de Saúde. A divisão dos valores e a escolha dos profissionais beneficiados ficam sob responsabilidade da administração pública, reduzindo o espaço para negociações individuais.

Além disso, o modelo ajudaria a criar um ambiente mais colaborativo entre profissionais da rede e residentes — exatamente o oposto do que foi relatado em Bauru.

Secretários da Saúde e Jurídico

O secretário municipal de Saúde, Márcio Cidade Gomes, reconheceu a existência do problema e afirmou que a administração estuda alternativas. Já o secretário municipal de Negócios Jurídicos, Vitor João de Freitas, adotou postura mais cautelosa e sustentou que qualquer mudança deve respeitar as regras do Coaps (Contrato Organizativo de Ação Pública Ensino-Saúde), argumentando que o município não poderia interferir diretamente na relação de preceptoria.

A posição, porém, foi contestada pelos representantes da USP, que defenderam que a formação médica dentro da rede pública não pode ficar restrita apenas aos profissionais que recebem bolsas.

Enquanto o debate jurídico e administrativo se arrasta, vereadores alertaram para os impactos diretos na população. Atualmente, a Faculdade de Medicina da USP em Bauru possui 15 programas de residência aprovados pela Comissão Nacional de Residência Médica, formando especialistas em áreas estratégicas como clínica médica, pediatria e medicina de emergência.

Na avaliação dos parlamentares, a cidade deixa de aproveitar um reforço importante na rede pública justamente em um momento de sobrecarga dos serviços de saúde.

Ao final da audiência, Junior Rodrigues afirmou que poderá acionar o Ministério Público para apurar o funcionamento do sistema de bolsas e eventuais irregularidades envolvendo a preceptoria na rede municipal.