Desde quando a enfermidade de minha esposa deu mostras de agravamento, tomei conhecimento que os sintomas foram os mesmos do diagnóstico anotado pelo experiente médico que assumiu o tratamento em substituição a seu colega anterior. Me convenci ter chegado o momento de aumentar o número de cuidadoras para atuarem em rodizio de 24 horas em ambiente extra-hospitalar, no caso vertente, em nossa casa, numa aproximação do método conhecido por Home Care.
Seria imprescindível aumentar a jornada de cuidados nesse estágio da doença, incluindo a minha presença como um serviçal vigilante de seu comportamento, na tentativa de chegar a tempo de evitar a surpresa de alguma imprevisibilidade.
Eu, minha esposa e a cuidadora, permanecíamos no final das tardes de outono se 2021 postados numa pequena área incorporando alguns metros quadrados de quintal, conversando sobre assuntos quase sempre iniciados pela cuidadora e por ela dominados em razão do acúmulo de exercício de sua profissão, confirmados pela experiência na prática do ofício.
O quase monólogo era enfadonho, e raras vezes algum episódio diferente e interessante surgia, geralmente empregado numa linguagem simples e ilustradas por gesticulações que se coordenavam no ritmo das histórias contadas.
E assim passaram-se os dias, os meses e mesmo mais que isso até a chegada da hora inevitável, onde a tristeza do cenário se transforma em momentos que a alma fica menos dolorida, máxime naqueles revelados por minha esposa ao esboçar um pálido sorriso, claramente indicando que a doença em nenhum instante lhe subtraiu a lucidez nem o brilho dos olhos por se ver cercada de carinhos.
Não mais falava, todavia entendia o que diziam a seu redor. A musculatura humana, sustentáculos dos movimentos corporais, não reagia as ordens de enrijeser por ordem do cérebro, numa incrível demonstração de superioridade dos órgãos do corpo humano sobre os demais componentes.
Era dia de sábado que a campainha de minha casa soou, anunciando que alguém queria alguma coisa. Para minha surpresa, era o Ino Alvares Ocampo, velho conhecido dos tempos de solteiro, transportando em seu veículo Nenê Pelegrina e Sebastião Godoy.
Vieram até a mim convidando para saborear um café acompanhado de pão de queijo, servidos na lanchonete da loja Havan. Aceitei o convite e no trajeto, Ino fez um resumo da finalidade da reunião dizendo que se tratava de um encontro de alguns dos antigos amigos, numa roda de café, relatando lembranças e comentando outros fatos atuais divulgados na mídia.
Acrescentou que o grupo por ele formado não poderia ultrapassar a sete pessoas, com mais de 80 anos de idade e que conhecessem um pouco da história e moradores tradicionais da cidade, uma vez que esse fato é rico em quantidade, e por décadas foi colecionado e publicado mensalmente por Luciano Dias Pires, cujo jornalista encabeçou uma pequena lista de pesquisadores dessa matéria.
Amenidades e assuntos diversos serão comentados na reunião, disse, esquivando-se de alguns temas, a exemplo da religião e política porque sugerem polêmica, inconveniente ao propósito e ao lugar púbico da lanchonete.
Houve outra regra imposta pelo Ino referente ao horário da reunião. Observou que os comensais cumpram com rigor os horários de chegada e saída, embora sendo espanhol, herdou alguns costumes seculares dos ingleses.
Em pouco tempo outros interessados foram aparecendo nas reuniões, como Luiz Augusto O. Castro; Luiz Carlos P. Ballalai; Antônio Carlos Duarte; Jadyr José Gabrielli; Pedro G. Cardoso; Murilo Aiello e Urias Mandelli assim como alguns se retiraram por motivo justificado e outros ingressaram, ressalvando que houve uma exceção com o ingresso do Antônio Carlos Duarte, caçula do grupo, com 77 anos de idade.
Algo que chega ser surpreendente é a curiosidade de muitas pessoas que descem pela passarela da loja Havan carregadas com sacolas de compras, e fazem uma pausa em posição superior à mesa, afim de manifestar elogios a iniciativa, destacando nossas cabeças encanecidas como uma força do aproveitamento do sábado por pessoas aposentadas.