23 de maio de 2026
COLUNISTA

Um país completamente do avesso


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O Brasil vive um momento de profunda inversão de valores. Em várias áreas da sociedade, princípios básicos como liberdade, autoridade familiar e responsabilidade moral parecem estar sendo substituídos por um crescente controle ideológico e estatal. Para muitos brasileiros, especialmente aqueles que valorizam a democracia, que valorizam autonomia da família e os fundamentos da civilização, o sentimento é de preocupação legítima. O país parece caminhar perigosamente para um modelo em que o Estado não apenas governa, mas molda consciências.

Duas decisões recentes ilustram essa realidade de maneira alarmante. A primeira delas veio do Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiu derrubar uma lei do Espírito Santo que permitia aos pais impedir a participação de seus filhos em aulas sobre identidade de gênero. Por ampla maioria, a Corte entendeu que o Estado possui competência exclusiva para definir diretrizes educacionais, invalidando o direito dos pais de escolherem aquilo que seus filhos devem ou não absorver em questões morais e ideológicas. A mensagem transmitida foi clara e inquietante: o Estado reivindica para si a autoridade final sobre a formação das crianças. Mas desde quando filhos pertencem ao governo? Desde quando pais e mães se tornaram meros espectadores da educação moral de seus próprios filhos? A família sempre foi o fundamento da sociedade. Antes de existir escola, partido político ou qualquer instituição estatal, Deus estabeleceu a família. A Bíblia é clara ao ensinar que os pais possuem a responsabilidade primária pela formação espiritual e moral dos filhos. Toda educação carrega valores. Não existe neutralidade absoluta. Quando o Estado impõe conteúdos ideológicos sem respeitar a consciência familiar, ele ultrapassa seu papel legítimo e invade uma esfera que pertence aos pais.

A segunda notícia que chocou muitos brasileiros veio do interior de São Paulo. Uma família foi condenada por educar as próprias filhas em casa (homeschooling). As meninas estudavam idiomas, música, literatura e demonstravam desempenho intelectual acima da média nacional. Ainda assim, os pais foram tratados com o criminosos. O mais perturbador é que as críticas não se concentraram na ausência de aprendizado acadêmico, mas na falta de determinados conteúdos culturais e ideológicos. Em outras palavras: estudar não bastou. Ler 30 livros por ano, em um país onde a imensa maioria das crianças sequer lê um único livro, não bastou. Desenvolver disciplina, conhecimento, música e raciocínio também não bastou. O problema foi não aderir ao modelo cultural esperado.

Isso revela uma questão profunda: o objetivo da educação é formar indivíduos capazes de pensar ou apenas produzir conformidade ideológica? Esse país está completamente do avesso. Milhões de estudantes concluem o ensino básico sem interpretação adequada de texto, sem domínio da matemática e sem hábito de leitura. Ainda assim, famílias que se esforçam para oferecer educação de excelência aos filhos, deixando-os brilhantes, passam a ser vistas com suspeita. Vivemos tempos em que a mediocridade é tolerada, mas a excelência independente incomoda. A Bíblia ensina que os filhos são herança de Deus confiada aos pais (Salmos 127.3). A herança não pertence ao Estado. Pertence à família diante de Deus. Isso não significa defender abandono escolar ou isolamento social, mas afirmar um princípio essencial: os pais possuem o direito e o dever de participar ativamente da formação moral, intelectual e espiritual de seus filhos.

Quando governos passam a tratar pais como obstáculos e não como parceiros, algo profundamente errado está acontecendo.

Uma sociedade saudável fortalece famílias; não as substitui. Também é importante lembrar que educação verdadeira não se resume à acumulação de conteúdo técnico. Jesus cresceu "em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens" (Lucas 2:52). O modelo bíblico de formação é integral: envolve mente, caráter, virtudes e espiritualidade. Sem fundamentos morais sólidos, o conhecimento se transforma apenas em ferramenta vazia. Uma nação que abandona princípios eternos inevitavelmente colhe confusão, desordem e decadência cultural.

O debate atual não é apenas político. É civilizacional. Quem terá a palavra final sobre a formação das próximas gerações? A família ou o Estado? Valores permanentes ou ideologias passageiras? Quando pais perdem autoridade sobre os filhos, a própria estrutura social começa a desmoronar. E quando o Estado assume o papel de tutor moral absoluto, a liberdade deixa de ser um direito e passa a ser uma concessão temporária. O Brasil precisa urgentemente reencontrar equilíbrio, bom senso e respeito à instituição familiar. Uma sociedade forte nasce em lares fortes. E nenhuma democracia permanece saudável quando a consciência dos pais deixa de ser respeitada. Porque no fim, a grande pergunta continua ecoando: os filhos pertencem à família ou ao Estado?