23 de maio de 2026
BAURU E REGIÃO

O que revelam e nos propõem as caravanas de políticos nas cidades

Por Nelson Itaberá | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Se o poder da caneta dos prefeitos para contratar projetos de porte é infinitamente menor do que a de governadores de Estados com arrecadação de peso e, claro, de um presidente da República, também é certo afirmar que, cada vez mais, a concentração de verbas em Brasília aprofundou o "poder de fogo" das reuniões de bancadas e ministérios na hora de decidir para onde vão os investimentos mais robustos. Mas neste ano eleitoral, não por acaso, as caravanas de "visitas oficiais" de governos mantêm a todo vapor a cultura dos ensaiados pedidos de peso nos eventos com palanque. Mas desde que existam projetos executivos.

Para além dessa forma de fazer política com traços neocolonialistas no Brasil, as caravanas mostram que ter deputado federal ou estadual, secretário de Estado próximo, ou ministro, ajuda, evidente. Mas "na hora H" quem não tem projeto (de concepção - da forma ao financeiro - e de engenharia - o executivo) fica no escaninho. Quem tem leva!

Não por acaso, as caravanas de governos mostram "seu peso", de novo, neste 2026. Esta sensação esteve presente nas conversas de cada um dos 38 prefeitos que compareceram a agenda de dois dias em Bauru, nesta semana (20 e 21/5), do governador paulista Tarcísio de Freitas. E também não é diferente nas andanças que o presidente Lula vem realizando pelo Interior do País. A observação do "ambiente" dessas agendas revela que "o acaso" nunca está presente nesses encontros. Quase tudo, por sinal, é ensaiado antes.

Alguns exemplos recentes confirmam a trilha das caravanas.

DISTRITO DE SAÚDE

Nos últimos dias, viralizaram, em conteúdos distintos, dois vídeos curtos com o presidente Lula e os prefeitos de Barretos e Ribeirão Preto. Ao anunciar investimentos para um novo Centro de Cirurgia Robótica para o Hospital de Amor, Lula disse ao prefeito barretense Odair Silva que ele tinha direito a um grande pedido. Protocolo meio ensaiado. Claro.

Mas Odair pediu dois. A construção de uma nova Santa Casa e a criação do Distrito Industrial de Saúde. Segundo Odair, "a cidade tem vocação para concentrar empresas de biotecnologia, fabricantes de insumos, medicamentos e equipamentos médicos para gerar empregos e fortalecer a autossuficiência do Sistema Único de Saúde (SUS)". Lula determinou ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que analise o projeto. Sim! Odair já tinha cuidado de pensar no projeto para "trucar" alto.

E Bauru? Bom. Por falar em presidente, os bastidores indicam que Lula pode vir a cidade, nos próximos dias, para inaugurar a sede do Instituto Federal. E Odair faz pensar: O que a prefeita Suéllen Rosim vai dizer ao presidente se ele repetir o mesmo protocolo que têm mantido nas viagens neste ano de reeleição?

No setor de Saúde, a prefeita Suéllen Rosim comemorou, na última quinta-feira, investimentos de fato relevantes em equipamentos e ampliação de leitos na programação iniciada há algum tempo, ainda no governo Tarcísio, de instalar e dar capacidade operacional plena para o Hospital das Clínicas (USP). A unidade está chegando a 140 leitos operacionais. O projeto pleno é para mais de 300. Pra quem não se lembra, o então governador Geraldo Alckmin assinou, no Teatro da USP, certa vez, o acordo para que a universidade criasse a Faculdade de Medicina. O Predião, já como hospital-escola, saiu do projeto inicial via Centrinho e entrou no pacote para abrigar o novo curso.

E também é dos bastidores da gestão da USP na cidade que foi realimentada a ideia de que Bauru é quem deveria pedir ao presidente da República a instalação de Distrito Industrial de Saúde. Esta conversa recirculou no campus local na visita de Tarcísio na quinta-feira. Sob a condição de não revelar nomes, a citação é de que, de fato, foi dentro da USP em Bauru, via fundação (Funcraf), que ocorreu a elaboração, nos anos 2000 (governo Nilson Costa), do projeto para criar um Distrito Industrial de Saúde de Bauru. A estrutura elementar está dentro dos mais de 230 mil metros quadrados da área industrial à margem da rodovia Bauru-Jaú (ex-Agroquisa).

VOCAÇÃO

A plataforma concebida pelo então superintendente do Centrinho, José Alberto de Souza Freitas (Tio Gastão), previa que a unidade fabricaria desde insumos para unidades básicas de saúde e hospitais (materiais de sutura ou curativos - como gaze, algodão, esparadrapo) a uma lavanderia industrial. O projeto chegou a animar José Serra, quando ministro, em certa ocasião. Mas não avançou.

Esta área industrial, hoje, aguarda decisões do Município sobre pedidos de cessões industriais diversas. Pendentes. Ainda na visita de Tarcísio, um graduado professor da USP comparou: "Bauru tem seis hospitais públicos de porte e alguns privados, além de vários cursos em saúde, da medicina, fonoaudiologia, odontologia. A vocação de cadeia industrial de saúde forte é aqui", em lamento.

Outra cena vem do primeiro dia da Caravana 3D de Tarcísio, em Bauru, na quarta-feira, onde políticos daqui e de cidades da região conversaram, por exemplo, sobre o absurdo da cidade não ter deputados "nativos". Em outro papo, um prefeito foi convidado a apoiar uma candidatura de político bauruense. Mas chamou atenção, nas duas conversas, uma mesma citação. A recente agenda de Lula com o prefeito de Ribeirão Preto, Ricardo Silva (PSD), com o ministro das Cidades, Jáder Barbalho Filho e o deputado federal Baleia Rossi (MDB).

O adversário político em Ribeirão, 'rasgou a seda' para o petista-presidente na assinatura de financiamento de R$ 1,1 bilhão para aquela cidade instalar, em 4 anos, o complexo viário Leste-Oeste, com 27 quilômetros de avenidas, com parque linear e etc. O projeto aprovado em Brasília, via PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), inclui remoção de favelas no trajeto, com construção de moradias via Minha Casa Minha Vida.

Outra? Um vereador de cidade vizinha a Bauru provocou que a última avenida "conquistada" (disse) aqui foi a extensão da Nações Norte (governo Alckmin). Um jornalista tratou de lembrar que o então presidente Geisel veio e teve de reconstruir parte da Nações Unidas da época (que explodiu com o acidente de um caminhão após vazamento de inflamável). Outro parlamentar emendou que Pederneiras "fisgou" (essa foi a palavra) alguns milhões de Reais pedidos pela prefeita Ivana Camarinha nessa caravana. O Executivo de Bauru pediu R$ 24 milhões para infraestrutura do Distrito Industrial e pouco mais de R$ 50 milhões para asfaltar Bauru-Piratininga pela estrada velha. Tarcísio anunciou R$ 22 milhões em drenagem urbana.

Segundo vários prefeitos consultados, cada um foi orientado pelo protocolo do Palácio dos Bandeirantes a encaminhar 3 pedidos. Ao menos um seria atendido na caravana.

Sobre Distritos, solicitamos a assessoria de imprensa do governo municipal dados atualizados sobre investimentos necessários nas 4 unidades instaladas. O governo ficou de enviar. Além do D4 pedido a Tarcísio, Suéllen inseriu R$ 18 milhões para licitar obras para revitalizar o Distrito 3 via Desenvolve SP. O financiamento de R$ 111 milhões junto ao Estado foi aprovado pela Câmara e aguarda aval técnico-financeiro do Tesouro Nacional.