Nenhum dos observadores políticos conseguiu prognosticar se a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República vai parar de pé, passada a tempestade provocada pelas revelações envolvendo o "irmão" Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O que se sabe é que o filho O1 de Jair Bolsonaro perdeu de 3 a 4 pontos nas pesquisas de intenção de votos, mas ninguém é capaz de afirmar quem se beneficiou. O pré-candidato Romeu Zema (Novo-MG) perdeu posição como autor das críticas mais pesadas a Flávio, no campo da ética e da moralidade. Ronaldo Caiado (PSD-GO) permanece no mesmo lugar nas pesquisas. O ex-governador goiano preferiu centrar suas críticas no próprio Vorcaro, a quem acusou de "contaminar todos os poderes". Resta evidente que Lula recupera parte do seu favoritismo, mas ninguém consegue garantir uma transferência definitiva de votos da direita. A elite econômica espera para ver.
O que existe é uma "polarização de sofá", apelido para gente que não sabe de nada, acredita saber de tudo, não tem ideia de como as coisas funcionam, pega tudo pela superfície e acredita que desse modo participa do debate político. Polarização continua sendo o nosso oxigênio - ou melhor, o nosso monóxido de carbono.
Sabedor dessa incultura brasileira, Flávio ficou de apresentar a prestação de contas do filme "Dark Horse" sobre o seu pai daqui 30 dias. A estratégia é ganhar tempo e justificar todo o dinheiro recebido de Vorcaro. O país estará em clima de Copa do Mundo e consolidadas as chapas estaduais e federais para a campanha eleitoral. Como pré-candidato lançado pelo pai, Flávio só tem o sobrenome como capital político principal, ou único. O Brasil não é uma monarquia para ter um delfim, mas que assim seja.
Em Bauru, o governador Tarcísio de Freitas (Republicano) disse não acreditar que o caso Flávio-Vorcaro possa afetar a campanha da sua reeleição. Prefeitos da região, de todos os partidos, vieram de chapéu na mão para recolher algumas benesses. Faz parte do jogo. Tarcísio só não quis comentar se Jair Bolsonaro, a esta altura, não estaria arrependido da fórmula caseira ao apontar quem usará o seu nome como candidato à Presidência da República.
Quem procura analisar a situação com um pouco mais de cuidado, percebe apreensivo: corremos o risco de ter um presidencialismo populista de esquerda com um Congresso de direita. É receita certa para crise. Ficou para trás o regime presidencialista de coalizão, onde o chefe do governo mantinha o orçamento e o poder de cooptar apoio dos legisladores na liberação das verbas.
A Câmara dos Deputados e o Senado arrebentaram as portas dos cofres públicos. O Fundo Eleitoral, que era de R$ 1 bi em 2025, neste ano passa para R$ 5 bi. Na madrugada, os deputados praticamente liberaram de punições os partidos que não apresentaram contas ou que as tiveram rejeitadas. A multa máxima passa a ser de no máximo R$ 30 mil, a pagar em suaves prestações, não importa o quanto foi desviado. As legendas com contas reprovadas não podem ser impedidas de participar de eleições e receber repasses de verbas públicas. A Lei da Ficha-Limpa foi para o espaço. Abriram a porteira da desinformação ao afrouxarem as regras que limitavam os disparos de mensagens robotizadas pelos meios eletrônicos.
Nesse pacote da vergonha passou-se a permitir que os governos federal, estadual e municipal façam doações em período eleitoral de bens, dinheiro e benefícios como cesta básica, tratores, ambulâncias. O dinheiro é a graxa que azeita o sistema viciado. Democracia não morre apenas de golpe de Estado. Sucumbe, lentamente, pela indiferença de uma população que deixa de acreditar que o voto muda algo e pela incapacidade dos seus líderes de entregar soluções para os problemas nacionais. Vivemos esse momento.
Democracias não precisam de salvadores, mas de cidadãos dispostos a construir uma nação sustentável e mais justa.
O autor é jornalista.